Os Mil Tons de Cinza Pela Brancura dos Olhos Negros

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cinema de Berlim 2017


A diretora Daniela Thomas foi motivada pela riqueza de detalhes de uma história-lenda de sua família, por sua formação em História (“Duas horas de filme e quarenta e cinco anos de referências”), por seu gosto pelo cinema (o impacto que o cinema teve em sua vida) e por uma aguçada cinefilia (“cinema é um meio de transporte”), que “inaugurou sua vida” – e se “libertou” – numa sala de cinema aos nove anos vendo “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick (“O Cinemascope deste filme nasceu com a amanhecer do Kubrick”), pela descoberta de que a “dúvida era boa” (“Não entender uma história era maravilhoso”), pelo amor incondicional à fotografia do preto-e-branco (“a grande cor”), por “Vidas Secas” (“Tudo que ama no cinema”, que “assistiu vinte vezes antes de fazer este filme” e que “acha que jamais fará um filme tão bom”) e pela entrega – e se “disponibiliza inteiramente” – ao cinema (“que só no amor tenho igual”) tudo para construir, das “muitas coisas que juntam compõem uma imagem”, o roteiro de seu novo filme “Vazante”, que, hoje, exibe aqui, pela primeira vez, no Festival de Berlim 2017.

Busca-se uma homenagem a “Vidas Secas”, que “não usa da palavra para se comunicar” e traduzir o “choque” da normalidade-naturalidade de um relacionamento-casamento incomum de um homem mais velho com uma menina com doze anos, e também uma reflexão de volta ao tempo, uma “dívida com o passado” dos próprios brasileiros. Em um cenário esperando para ser encontrado os “mil tons de cinza e de prata que têm ali”.

“Vazante” (que é um município brasileiro do estado de Minas Gerais) representa mais um típico exemplo de filme que se desenvolve pela contemplação (aos moldes da cinematografia de Miguel Gomes em “Tabu”), que cria uma ambiência de tempo pausado. É um conto de revisitação comportamental a uma nostalgia histórica. É observar a poesia da imagem, sem pressa, para assim mergulhar na crítica antropológica da escravidão. A fotografia monocromática, à moda estética orgânica de Sebastião Salgado, quer retratar um tempo sem cor. A narrativa, que abraça o elemento temporal-visual do diretor filipino Lav Diaz, objetiva imergir o espectador nas sensações dos sentimentos brutos, como o de um negro com nome português e ou a profissão de poder dos Capitães do Mato e ou a presença da câmera subjetiva em cima de um cavalo (que faz com que nós andemos juntos). Esta sinestesia conduz-se pelo caminho das ações mais teatrais, com o intuito de ser mais condizente e próximo à estrutura do livro de Graciliano Ramos e do filme de Nelson Pereira dos Santos.

O longa-metragem transpassa planos panorâmicos e contínuos para contar a revolução dos negros (a luta á liberdade e para “cessar a humilhação” dos “negros fujões” e das “marcações-posses como gado”) e a fragilidade dos “sinhozinhos”, que sem os escravos precisam, sozinhos, “ir à batalha” e “desbravar o mato” sem prática, sem entender a língua africana e não ter desenvoltura em ser o “senhor dos negros”. “Terra boa é terra inútil”, diz-se sobre a história que acontece no início do século dezenove em uma fazenda imponente e decadente, situada na região dos diamantes em Minas Gerais, lugar em que brancos, que negros nativos e recém-chegados da África sofrem com os conflitos e a incomunicabilidade gerada pela solidão e pelas tensões raciais e de gênero em um país que passa por um forte período de mudança.

“Vazante”, que tem a supervisão do roteiro de Marcelo Gomes (que integra a mostra competitiva deste ano com “Joaquim”), segue o ordenamento de capítulos de um livro. Sua veia mais novelesca imprime núcleos por micro-ações que se comportam como cenas-elipses que se conectam, como a da menina (a “criança” “mulher que serve”), que casa cedo e que espera sua menstruação chegar para consumir o matrimônio. Neste meio tempo, ela descobre a sexualidade e desejos “proibidos” por outro. Aqui, todo conforto é oferecido, ainda que simples, e nós podemos referenciar à semelhança temática do filme “Lady Macbeth”, de William Oldroyd (em cartaz nos cinemas cariocas).

Ela, Beatriz (a atriz Luana Tito Nastas), descobre a “festa na senzala” (como uma “Sinhá Moça” em um histórico “Dirty Dancing”, vivendo uma “Maria Antonieta abrasileirada”), a submissão das mulheres, o passatempo do “conta e desconta”e os “demônios” do lugar. “Valentia aqui não tem serventia”, diz-se para explicitar o bucolismo interiorano de uma terra sem lei e para assumir o poder de um sobre os outros. O filme finaliza-se com a música “A Noite do Meu Bem” de Tom Zé.


O filme participa da 50ª edição do Festival de Cinema de Brasília 2017 na mostra competitiva de longa-metragem.


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