Uma Ópera-Lenda de Acerto de Contas Com o Passado

Por Fabricio Duque


Há cineastas que não abrem mão de sua essência. Que conservam sua essência. Que lutam por seus conceitos, temas, estéticas e simbolismos. O diretor Felipe Bragança (de “Alegria” e roteirista de “Praia do Futuro”, de Karim Aïnouz) é um deles, assumindo que seus filmes são “esquisitos”, nas palavras do próprio.

Seu mais recente longa-metragem, “Não Devore Meu Coração”, exibido no Festival de Berlim 2017, corrobora-se o espírito livre do cinema, pontuando a ingenuidade formal do discurso (mais passional e radical) de Glauber Rocha com a brasilidade “macunaíma” de Joaquim Pedro de Andrade (baseado na obra de Mário de Andrade) com o visual neon de Nicolas Winding Refn em “Drive”.

É um filme metáfora sobre ancestrais, sobre o resgate de um povo esquecido no progresso dos novos tempos, sobre uma “terra assombrada pelo passado”, sobre o outro lado da Guerra do Paraguay com suas fotos históricas, sobre o difícil caminho daqueles que já perderam as expectativas, mas que no fundo guardam faíscas de resiliência.

“Não Devore Meu Coração” liberta a imagem da câmera com seu zoom explícito e com seu jacaré na estrada para contar a história de um amor proibido entre um brasileiro e uma paraguaia (numa moderna e abrasileirada versão de “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare). Este amor preso pelo simbolismo de se “pegar literalmente o coração”, pela ancestralidade dos sonhos, pela imaginação assombrada de uma indígena.

O filme constrói silêncios, passados paralelos e música ora cósmica-atmosfera, ora eletrônica (à moda de “Tron”) em uma narrativa por capítulos. Como se fosse um livro da própria vida, suavizando a realidade pela ficção contada e pelo presente que reavive fantasmas pelas memórias “de volta do passado” do medo de uma guerreira guarani.

“Não Devore Meu Coração” é um filme de ficção científica. E falado totalmente em guarani (língua co-oficial do Paraguai). De “guerra de lágrimas”, a mais “violenta da América do Sul”. De “medalha da sorte”. De safadeza sexual. É “Batman versus Super-homem”. Bruce Wayne contra Clark Kent. Um humano (os brasileiros) e um alienígena (os paraguaios). Questiona-se sobre o estrangeirismo e a imigração. “um perfume de terra e sangue”.

Joca (Eduardo Macedo), um jovem de treze anos, descobre o amor quando conhece Basano (Adeli Benitez), uma menina paraguaia. No entanto, para conquistá-la, Joca passará por grandes dificuldades relativos a problemas de fronteira entre o Brasil e o Paraguai e a relação seu irmão Fernando “dezembro” “handsome boy” (Cauã Reymond), um homem, “Brad Pitt de meia tijela”, que pertence a uma gangue de motociclistas com nomes de meses, que nas horas livres faz-se poesia, gasolina, música e oração.

Há o machismo no gosto por “acordar sozinho” e pela posse da “índia dele”. Há a gangue do irmão “ogro” que luta pelos direitos (“Não sou bandido”). Há a mãe apática que “dorme o dia todo”. “Pode se apaixonar, mas ele vai te largar”, diz-se. Há a espontaneidade realista das “ordens do irmão”, do “nariz mágico”, da “corrida da moto”. “Até quando você tem coração?”, pergunta-se.

“Não Devore Meu Coração” é um filme sobre tempos. De espera. De personificar características comportamentais interioranas. Em uma condução leve e cadenciada, mostra momentos de “ir à escola, estudar e virar gente”, uma vida “Telecath” “Quentin Tarantino” em seus bares na fronteira, com “homem de verdade”, espadas, inferindo o seriado “Stranger Things” com Rei “Lancelot” com “Conta Comigo”.

É a revolução do “coração” pela “vitória e dignidade”. É uma ópera-lenda utópica. “Deus é máquina”, diz-se. É o amor inocente. O simbolismo do fim do mundo. A pequena rainha do Rio Apa. O filme preocupa-se mais com seu conceito que pela forma interpretativa, que é uma das características do cinema de Felipe. Seus diálogos soam mais encenados, mais anti-naturalistas, mais distantes, mais forçados e menos verossímeis, mais raivoso. E com o cantor, agora ator, Ney Matogrosso para “conduzir o guri”.

“Não Devore Meu Coração” busca a fantasia, o tom surreal, um “mad max” indígena, um faroeste caboclo de acerto de contas com o passado, gerando a culpa e se resolvendo na redenção. “Meu inimigo, meu amor”, diz-se. O filme é, acima de tudo, autoral e respeita fielmente as estranhezas pensadoras de seu diretor, que logicamente assume o papel também de roteirista. Tem produção de Carlos Diegues e co-produção de Cauã Reymond, que vem se embrenhando mais e mais nos filmes conceito, vide “Reza a Lenda”, de Homero Olivetto.


O filme abrirá a edição de cinquenta anos do Festival de Brasília em 2017. 

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