O Humor Surreal que salva a esperança

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2017


A maestria principal do diretor finlandês Aki Kaurismäki (de “O Porto”, “O Homem Sem Passado”, “Luzes na Escuridão”) é sua capacidade de envolver seu público em uma direta apatia altamente expressiva. Seus personagens expressam suas reações pela observação estendida do olhar no outro próximo, explicitando verdadeiros e puros julgamentos, estes não como críticas, mas sim como uma tentativa de entendimento, em ações silenciosas que dizem precisamente tudo sem palavras. Não é um filme silencioso, tampouco mudo, apenas de tradução existencial, de dentro para fora com sua natural comicidade.

Em seu mais recente filme, “O Outro Lado da Esperança”, exibido na mostra competitiva do Festival de Berlim 2017 ao prêmio de Urso de Ouro, e que venceu na categoria Urso de Prata de Melhor Diretor, a narrativa intercala instantes e elipses que precisam ser montadas peça-a-peça em ângulos únicos de uma câmera que cria imagens com uma moderna, realista e neon fotografia noir.

Há o homem que está deixando sua casa; o homem que vende suas roupas; o homem que foi ao centro de detenção por opção; o que quer ir ao México e dançar Hula-Hula; o imigrante correto que vai à polícia para se tornar um cidadão legal; todas as ações, que soam surrealistas de tão estranhas, constroem em uma veracidade epifania o que realmente o ser humano é. O roteiro disseca alma e comportamento, desmascarando hipocrisias, revelando a verdade nua e crua da necessidade egoísta da sobrevivência. Não há lado mau, tampouco bom. Não há espaço e tempo para maniqueísmos. Todos têm suas razões. E todas são válidas, pertinentes e justificadas.

“O Outro Lado da Esperança” apresenta um estudo de caso social sobre a imigração, desenhando suas causas, seus desenvolvimentos, suas fronteiras, seus descasos, seu xenofobismo dos locais, seus futuros, consequências, passados e dificuldades. A fuga do lugar de origem é explicado pela confissão catártica da violência sofrida.

Na coletiva de imprensa, Aki, mais desesperançoso como de costume, disse que a humanidade não tem mais salvação. Que o ser humano não consegue fugir de seu egocentrismo de só olhar ao próprio umbigo.

Este filme talvez seja sua última esperança. Sem a pretensão de mudar o mundo, mas de fazer a diferença, mesmo mínima. Uma das análises é que o roteiro aborda todas as ações de seus personagens com extrema importância. Tudo é importante. Porque cada detalhe é o que faz a vida acontecer. Há um humor peculiar. É direto, cúmplice, sarcástico, defensivo, agressivo, insolente, ofensivo, intolerante, mas ingenuamente inocente.

A câmera é um trabalho de arte. Cada cena define na imagens uma percepção adjetivada do espectador. Ora estática, ora plano e contraplano em diálogos perguntas, que mais parecem monólogos. Cada um busca sua sobrevivência diária, como o intervalo com música – tocam para “ganhar a vida”; o retrato; o “sortudo no jogo” Poker. Eles aprendem o “jeitinho”, a “dançar conforme a música”, por exemplo o restaurante-hotel que se adequa e modifica à “demanda do freguês”. Cada mudança representa um transição política-financeira.

“O Outro Lado da Esperança” interfere na própria trama, como os barulhos-ruídos da impressora imprimindo que fazem a cena esperar e ou a foto de Jimi Hendrix e ou a sardinha em lata e ou os músicos cantarem. Tramas paralelas como a irmã desaparecida, o imigrante sírio que sai da guerra para encontrar a paz “Meca Eldorado” na Finlândia. Nenhum deles transmite emoção, comportando-se como robôs alienados sociais.

Khaled (o ator Sherwan Haji) fugiu da guerra na Síria e foi buscar asilo na Europa. Depois de percorrer vários países, solicita a permissão de estadia na Finlândia. Enquanto espera pela resposta, busca pela irmã, desaparecida, e consegue a ajuda de um pequeno comerciante, Wisktröm (Sakari Kuosmanen), que aceita empregá-lo em seu pequeno restaurante.

A lei e a polícia não ajudam Khaled. A inspeção sanitária também não. E assim, ele precisa viver um dilema de estar ilegal. É a metáfora do não existir. De não pertencimento. De sempre ser um cigano. Mudando e precisando mudar, impedido de criar raízes, como uma bola de ping-pong. O blues da música fornece o tom. “Se o sistema não funciona, eu tenho medo”, diz-se entre pedintes e “idiotas nazistas” versus a solidariedade. Sim, ainda há esperança. Existe um outro lado.

Esta é a odisseia de Khaled. Um “judeu boy”. A jornada para continuar sendo ele mesmo. O cachorro inteligente, a conversão a uma nova religião, a dificuldade de entender o sarcasmo, a identidade falsa, a checagem de rotina, a mudança constante de temáticas e tipos de comida do restaurante a outros públicos, toda essa rotina desgasta, engessado por um sistema vulnerável, frágil, que não enxerga o indivíduo como social, e que estimula à desistência. Mas estas pessoas lutam até o limite com o que possuem.

Eles duplicam o nada e conseguem ganhar um pouco. Que saem de casa para “fazer a diferença”. E que ajudam uns aos outros. E que no fundo ainda desejam conservar a essência do que realmente são e não mudar seus nomes. “Morrer é fácil, difícil é viver”, finaliza-se. Um filme que transcende o discurso imigratório, vivendo na própria pele. E o otimismo crônico prevalece, com a continuação do riso feliz. E da nomenclatura de que são refugiados em uma Europa em morte terminal.

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