A resiliente melancolia do recomeço

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2017


“Colo”, da diretora Teresa Villaverde (de “Visions of Europe”, “Cisne”, “Os Mutantes”), exibido na mostra competitiva do Festival de Berlim 2017, reitera a característica principal do cinema de Portugal: a de traduzir naturalidade pela narrativa direta (do passado dramática de seu personagens), pelos diálogos psicológicos de inocência sarcástica-perspicaz não sensíveis, pelas ações espontâneas e pelos silêncios de nostalgia melancólica.

O filme é um exercício de linguagem aos moldes do universo cinematográfico de poesia coloquial possível Pedro Costa com Miguel Gomes. Com medos (da mãe não voltar) e com a felicidade das “boas notícias”. É terapêutico quando apresenta um realismo resignado e resiliente, estendendo a contemplação. Assim, nós espectadores somos absorvidas pela atmosfera-sinestesia da espera. “Eu sou quem eu quiser”, diz-se.

“Colo” é sobre o cotidiano de uma família. A câmera passeia do todo ao dentro, mostrando detalhes, como filha que “rouba” o vinho da geladeira e ou o marido que procura emprego esperando entrevistas e ou alguém que come o resto de um sanduíche do chão. Tudo é construído para personificar silêncios e tédios destes personagens defensivos e co-dependentes. São momentos à moda de “O Fantasma”, de João Pedro Rodrigues. Únicos, vazios, particulares, íntimos, singulares e até mesmo anti-naturalistas e desengonçados, que o público é convidado a observar.

“A vida deveria ser só isso: viver dentro de uma música e esquecer todo o resto”, diz-se com verdade em um ensaio de uma banda e as conversas com uma amiga grávida. O tom navega também pelo artificialismo pretensioso no “fundo do fundo”. É uma aventura jornada. “Tudo é relativo” e causa medo. O aborto. A filosofia. Os espíritos do bebê. A crise financeira. E estes personagens “aproveitam” suas vidas para “causar mais problemas” histéricos e ou o surrealismo de baldes na cabeça.

“Colo” é uma road-movie de férias-existências-tipos-comportamentais, passando por casas a fim de encontrar o próprio lar. Fugindo de algo que não se sabe ainda. Em Portugal, uma família de classe média passa por grave crise financeira. O pai perde o emprego e não consegue encontrar outro trabalho, a mãe consegue acha uma segunda ocupação para aumentar a renda, mas anda sempre cansada e mal para em casa. Enquanto se tornam estranhos uns aos outros, a filha adolescente, negligenciada por ambos e cheia de segredos, começa a se rebelar. “O que está acontecendo na vida deles?”, pergunta-se.

É um filme jovem. Que integra a cidade e suas consequências mundanas-contemporâneas: o sexo adolescente, a maconha, as cicatrizes. O roteiro conduz-se pelo limite tênue da fragilidade e da maestria, causando reações forçadas e fora de tom. Em certo momento, diz-se que “o pai precisa se tratar”. Talvez em alguns pontos o filme também. Talvez esta liberdade amadora seja proposital a fim de fornecer humanismo improvisado de “imaginar a vida sem luz e sem telefone celular”. São instantes, fragmentos de vidas que tentam se encontrar.

“Colo” é uma metáfora poética sobre passado e recomeço. É um rebatismo pelo encontro de solitários e errantes desistentes, que se ajudam pelo caminho, criando uma teia solidária de terapia esperançosa de entender o outro em sua essência e dor. É o refúgio. Um descanso no sofrimento potencializado. Com droga ou não. Com punk pop ou não. É continuar acreditando no ser humano para o estimular a voltar para casa. “Na sua idade, você ainda não perde nada”, ensina-se a uma jovem. É a possibilidade de se reencontrar. De realmente entender que a família ama mutuamente uns aos outros, mas que estão com dificuldades de conversar. Entre idas e vindas, repetições do passado, projeções do querer, lugares inabitados, solidões alimentadas, desesperos amadores, utopias urgentes, o longa-metragem recria sensações internas de seus personagens pela estética nua da epifania libertadora.

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