Um “Dogville” Transgênero

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2017


“Uma Mulher Fantástica”, de Sebastián Lelio (de “Gloria”, “Navidad”), que concorre ao Urso de Ouro do Festival de Berlim 2017, causou uma tamanha sinestesia política durante a exibição e após a sessão, conversas pulularam sem parar. Uma delas, com outro colega crítico, que disse que mesmo com a interpretação impecável de Daniela Vega (uma transgênero, e uma completa atriz), questionou que talvez ela não ganhe o prêmio por causa de feministas radicais (que enxergam apenas a questão biológica e não a psicológica social). Eu o lembrei de que Paul Verhoeven é o presidente do júri deste ano, por causa de seu “poder” no voto de “Minerva” e por causa de seu discurso que “quebra paradigmas” (vide “Elle”), o prêmio de Vega estava mais que garantido. Mas ao assistir a coletiva de imprensa oficial em que Paul disse “Eu estou de olho nos filmes, sem prejudicar nenhuma política. Eu espero que o resto do júri olhe para a qualidade do filme e não se isso trará uma mensagem política no geral”. Final dos argumentos. Não se tem mais certeza de nada agora. Na coletiva de imprensa do filme em questão, o diretor chileno disse que o trabalho foi “orgânico e intuitivo” e reverberou seu discurso político em querer “um mundo sem barreiras”. “Qual o limite da empatia? Que amores são possíveis? O que é permitido? Este filme deixa para que o espectador complete as próprias opinões”. Um filme que é impossível não inferir “Dogville”, de Lars von Trier, porque nosso querer se torna quase cego em lutar para que a personagem imponha sua vingança, devido à sequência intermitente de humilhação física, psicológica, cruel de uma sociedade hostil, egoísta, limitada e preconceituosa. O longa-metragem conta ainda com produção de Pablo Larraín e co-produção de Mauren Ade.


“Uma Mulher Fantástica” é um balé da própria vida. Uma fábula real colorida de contemplação ao redor por detalhes e espelhos aos moldes visuais cinematográficos do diretor Derek Jarman. O dia-a-dia é ambientado. Tudo tem seu grau de importância, pululando ações apoteóticas versus a essência minimalista. Aqui, a projeção de uma viagem a Cataratas do Iguaçu, uma das “sete maravilhas do Mundo”, fornece espera e tempo à organização, envolto no romantismo de uma nostálgica música americana. Tudo parece um sonho à personagem principal, que vivencia a felicidade plena com liberdade e desmedido equilíbrio comportamental, mesmo que a espontânea encenação seja parte corriqueira e presente de seu cotidiano existencial. E da mesma forma que a alegria é experimentada, a tempestade pode surgir do nada (por um um mal-estar misterioso, instantâneo e fulminante de seu companheiro), a lançando em um Universo paralelo, realista, preconceituoso, cruel, mesquinho, egoísta e hipócrita.

O longa-metragem é sobre aceitação da identidade sexual. Do diferente não mais precisar permanecer na clandestinidade. Da não preocupação em se apresentar como mulher ou homem. De amar sem olhares julgadores da hostilidade de uma sociedade “careta, que tenta naturalidade em aceitar”. Sem a necessidade da padronização, que obriga a troca de sexo e que discrimina os seres “em trânsito”. Uma morte a faz culpada. Por ser a “escória”, por estar à margem da pseudo normalidade que se “prende aos detalhes (de clichê do imaginário popular): Dinheiro? Drogas? Sexo? Álcool? . A relação deles era normal e a defesa dessa “Mulher Fantástica” é perspicaz, sagaz e inteligente, à moda narrativa de Pedro Almodóvar.

“Uma Mulher Fantástica” é sinestésico. Nós sentimos os momentos, a tensão iminente da investigação, o “inquérito” do “enteado”, a agressividade, o nervosismo do encontro-confronto (cara-a-cara), a desconfiança de todos, a perversão do tratamento, a humilhação física, a complicação da luta por pertencer como parte da vida de seu amado, os impedimentos da não autorização de participar do funeral (“A novela inteira ou isto em particular?”)e até mesmo o carinho do cachorro Diabla. Daniela Vega, sua protagonista Marina, é uma diva natural. Uma mulher completa sem caricaturas e afetações, que agora ouve no rádio a música “You make me feel like a woman (“Você me faz sentir como uma mulher”). Marina “submete-se ao constrangimento de todos”. Aceita calada, firme, forte e impositiva, lidando com o medo de ser punida e processada.

Marina (Daniela Vega) é uma garçonete transexual que passa boa parte dos seus dias buscando seu sustento. Seu verdadeiro sonho é ser uma cantora de sucesso e, para isso, canta durante a noite em diversos clubes de sua cidade. O problema é que, após a inesperada morte de Orlando (Francisco Reyes), seu namorado e maior companheiro, sua vida dá uma guinada total.

“Uma Mulher Fantástica” faz com que Marina transforme-se. Torne-se mais masculina aos nossos olhos. Mais protegida, de volta ao “armário” com seus “segredos”. Ela entrega-se aos limites e regras da sociedade. Precisa lutar e “sair da zona de conforto”. Nós desejamos, assim como a personagem de Nicole Kidman no filme “Dogville”, de Lars von Trier, busque a vingança. Que proteste contra seus opressores. Que revide. Que saia do “submundo” masoquista. “O sonho acabou. De volta ao jogo”, diz. Mas algo é deixado. Um ponta de luz acende-se, interagindo reflexos elegantes, que abraçam a cinematografia de François Ozon com Louis Malle. Vencedor dos prêmios Urso de Prata, Teddy e o Ecumênico do Júri do Festival de Berlim 2017, este é um filme fantástico. Com uma atriz fantástica.

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