Uma digestão Sócio-Comportamental

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2017


O provocador diretor Oren Moverman (de “The Messenger”) apresenta, no Festival de Berlim 2017, seu mais recente filme “O Jantar”, uma adaptação do romance homônimo holandês de Herman Koch, sobre a história de um ambicioso politico (o ator Richard Gere) e seu mentalmente instável irmão (o ator Steven Coogan – “engraçado mas também com distúrbio muito inteligente”), em um jantar, entre a entrada à sobremesa, resolvem pendências e segredos familiares, como um crime violento cometido por seus filhos.

Aqui, busca-se o escapismo acima do realismo e a simplicidade acima das ações complexas. O longa-metragem, que questiona a violência gratuita de jovens que têm a compreensão dos pais para realizar atos tragédias contra outros seres humanos, surpreende pelo realismo das ações; pelo afiado-espirituoso sarcasmo; pela critica “à política”, visivelmente um protesto inteligente-sagaz contra Trump.

Dois casais se encontram em um elegante restaurante de “preço imoral”. São irmãos. O pobre e o rico. A simplicidade versus a complexidade. Enquanto a comida vai e vem, eles começam a conversar, passando por banalidades da vida até assuntos mais complicados. A discussão chega ao seu limite quando falam sobre seus filhos adolescentes, dois rapazes que estão envolvidos em uma complicada investigação policial. “Uma lembrança é como a página de um livro”, diz-se.

“O Jantar” constrói-se pelo limite tênue da edição videoclipe e do aprofundamento verborrágico (principalmente por sua narração que personifica pensamentos) para mostrar o vazio da juventude americana e a hipocrisia de duas famílias que se encontram. A câmera, com sua fotografia nostálgica, porém realista, ora com imagens sobrepostas, é um espetáculo à parte, envolvendo o espectador no universo de questões polêmicas, anti-éticas e politicamente incorretas das verdades inconvenientes (desconfortos incomuns, constrangedores e confrontantes de piadas propositadamente óbvias aos moldes de “A Praça é Nossa”), como a ocupação francesa. O filme é sóbrio, maduro, adulto, naturalista e espontâneo. Nós podemos inferir a “Homens, Mulheres e Filhos”, de Jason Reitman. “Dar Google é trapacear”, diz-se.

O longa-metragem é uma explícita, afiada e pontual crítica à sociedade em que vivemos por um estudo de caso intimista e pessoal. “Nunca reclame, nunca explique”, ensina-se manter a imagem da “infelicidade”, do “silêncio”, da “covardia” e do “medo”. Nós somos convocados a discutir a sociopatia. O ódio ao outro próximo. O porquê de se odiar tanto a outra pessoa. Uma catarse destrutiva que rememora a temática de “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick; “Violência Gratuita”, de Michael Haneke; e de seus jovens sem limites humanitários, extremados em suas intolerâncias (vide exemplo no documentário “intolerância.com”, de Susanna Lira).

Cada vez o individualismo arrogante e superior mostra “os dentes” e vítimas sofrem consequências trágicas (como “queimar moradores viciados de rua”, torturados por neo-nazistas-fascistas adolescentes “monstros” aclamados e estimulados pela Era Trump) unicamente pelo fato de estarem no “lugar errado, na hora errada”, ainda que não atrapalhe ninguém. “Sua vergonha é minha causa”, diz-se.

“O Jantar” confronta “necessidades estranhas” e cuidados familiares de um “pai tentando livrar o filho” e ou lutando pelo discurso à moda de “Capitão Fantástico”, de Matt Ross. Pulula-se defesa, ética, segredos, erros acobertados de lunáticos “Hitler”, aulas sobre a batalha de Gettysburg em 1853. A narrativa, agora em ritmo Thriller, mais em epifania, é quebrada com os dvds narrados sobre o acontecimento histórico americano. Aos poucos, o público monta o quebra-cabeças, entre outras quebras, como a aula sobre queijos em planos didáticos.

Esta quebra suaviza o tema e aumenta a crítica egoísta quando aliena o próprio discurso “desrespeitoso” com a futilidade. Teias de memórias, intervenções, loucuras passadas, puxadas de saco ao congressista, chantagens e finalmente a sobremesa, tudo desnorteia e conjectura o apoio das mães pelo política radical de Trump. “Ser humano protege os filhos” versus “Proteger o futuro dos filhos”. “Quem é mais importante: os filhos ou a humanidade do ser-humano?”. “Ele é melhor como governante que como pai”.

“O Jantar” é um “terror psicológico” sobre a frieza desumana. Sobre o digestivo do final. “Tudo é política”, finaliza-se. Um filme patológico que nivela em sua inteligência e não em seu “retardamento”.

“Sim, este é um modelo Putin de dirigir filmes. A grande ideia do livro é que traz uma horrível e impossível questão que é: até onde você vai para proteger seu filho que fez algo errado, um crime, e como lidar com isso? Quais são as implicações de denunciá-los e quais as de escondê-los, fazendo com que sigam suas vidas, sabendo que eles são culpados e nunca serão punidos? Isto é sobre pessoas com privilégios que são presas dentro do próprio mundo, na própria existência, na própria tribo e sem nenhuma compaixão dos outros. Eu não sei se algum filme pode mudar alguma coisa, mas isso é meu interesse: em ser relevante”, disse o diretor Oren Moverman. “O nome é esse porque o livro tem esse nome”, diz o diretor na coletiva. “Uma consciência raivosa. Deu até dor de cabeça”, define o ator Steve Coogan (impecável e destruidor), levando todos às gargalhadas. “Sem perguntas para Donald Trump. Não o convidei”, disse Richard Gere. “Muito orgânico e criativo o processo”. Ainda na mesa, a atriz Laura Linney (espetacular).

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