Viagem no tempo com um diretor de futuro

Por Francisco Carbone


Santiago Dellape é um cara de futuro, e um diretor que merece um olhar sobre si. Observar um cineasta que propõe algo diferenciado é extremamente rico, tanto para o olhar crítico quanto para o todo da cena cinematográfica do país. Se na mesma Mostra de Tiradentes vimos uma radicalização de proposta como no longa e na visão de Frederico Machado, o que Dellape quer contar tem menos a ver com risco, mas em trazer uma abertura de leque saudável para o cinema de gênero no país. A ficção científica é menos realizada por aqui que o terror ou mesmo o thriller, e Dellape logo finca seus pés num lugar cada vez mais profundo com ‘A Repartição do Tempo’, e isso soa muito positivo.

Não falta coragem para contar a história de um departamento de registro de patentes em Brasília, que um dia recebe em seus aposentos uma máquina do tempo. Como estão todos no mesmo barco da burocracia, a máquina é arquivada como tudo que chega por lá, mas em 10 minutos Dellape já realizou de um tudo em cena: o protagonista já terá passeado minutos pra trás e com essa dobradura do tempo, suas versões em passado e presente passam a conviver mutuamente, como clones. Dele e de todos da repartição, o que fará com que isso seja descoberto pelo chefe brilhantemente vivido por Eucir de Souza, e desencadeará uma trama rocambolesca em ritmo de bola de neve.

Num rincão esquecido da vasta burocracia brasileira, um chefe psicótico usa uma máquina do tempo para duplicar seus funcionários e aumentar a produtividade.

A questão é que o rocambole parece recheado demais (e que rende uma hilária participação de Dedé Santana) e a trama do filme vai se esgarçando até as raias do imponderável e a suspensão da descrença vai sendo gradativamente sendo abandonada, pelo bem da diversão. Tecnicamente Dellape tem poucas porcas a atarrachar; com uma direção de arte muito cuidadosa, montagem ritmada e fotografia bastante competente, o rapaz sabe que seu filme precisa respirar, então não o sufoca com excesso de firulas visuais. O filme as tem, mas também elas são calibrada e utilizadas com competência e parcimônia, um acerto raro em diretores jovens que precisam marcar território na indústria competitiva de hoje. Além disso, o filme compõe um elenco de tipos e personas que causa belo efeito dramático.

No fim das contas, foi o roteiro truncado a causar maiores senões nesse bem-vindo produto de multi-gênero (também carece de detalhamento o reduzido número de personagens em cena, muito poucos para alguns só falarem 5 frases o filme todo e serem mais que rubricas de cena). Ainda assim, a ousada, original e divertida proposta repleta de alfinetadas políticas e cheia de timing de comédia habilitam Dellape a, como disse no início do texto, passar para a próxima fase com boas credenciais para o longa seguinte.

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