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Um pequeno em um inocente amadurecimento

Por Fabricio Duque

“Moonlight – Sob a Luz do Luar” , do diretor, americano da Flórida, Barry Jenkins, quase um estreante em longas-metragens (este é seu segundo, o anterior “Medicine for Melancholy”, de 2008), é acima de tudo um filme ativista sobre minorias (pelo empoderamento negro, principalmente pela música inicial “Every nigger is a Star” – “Todo Negro é uma estrela” de Boris Gardiner), que aqui é potencializado pela especificidade social de uma aceitação particular e intimista de um ser-humano em aceitar a própria “diferença” perante um mundo hostil, cruel, julgador, hipócrita, egoísta, terminal, viciado, superficial, limitador, padronizado, desafiador e “valentão”.

O filme é sobre a jornada existencial de auto-conhecimento em três tempos narrativos (infância, adolescência e fase adulta) do “estranho” e “precioso” (versão masculina de “Preciosa” – não tanto pela mãe que extorque seu dinheiro, mas que em rompantes sóbrios “revoga o privilégio da televisão para estimular a leitura”, e sim pela quantidade de tragédias vivenciadas e potencializadas ao drama) Little (ator Alex Hibbert), e seu característico silêncio, a “recuperar” seu nome Chiron (Ashton Sanders) e se tornar um “mascarado fugitivo” Black (Trevante Rhodes). “Moonlight – Sob a Luz do Luar” é sobre a tentativa de escapar do caminho fácil da criminalidade (das “roubadas” – de se “manter fora da confusão”) e do mundo das drogas de Miami (cidade natal de seu diretor). Encontrando amor em locais surpreendentes, fora de casa e pela “madrasta” (a atriz cantora Janelle Monáe), ele sonha com um futuro maravilhoso.

“Moonlight – Sob a Luz do Luar”, com produção do astro-ator Brad Pitt, é unanimemente afro-americano. Não há nenhum “homem branco” em cena. Este detalhe é determinante para sua definição-condução, porque se busca analisar o papel do negro na sociedade, recebendo a mensagem de um estranho “Blue”, que aparece do nada no desejo de recuperar uma relação familiar (talvez o pai que nunca conheceu?), o ator Duan ‘Sandy’ Sanderson, de que “tem negros em qualquer lugar” e que “sob a luz do luar, garotos negros ficam azuis”. E ao aprender a nadar “experimenta o centro do mundo”.

Desde pequeno, Chiron precisa aceitar particularidades de sua existência. A homossexualidade é uma delas. O “pai” condescendente o acalma com “Chega um momento que você precisa decidir quem você é. Ninguém pode tomar essa decisão por você”. Isso é dito por causa das dúvidas da identidade sexual. Bicha é uma palavra que os outros usam para fazer os gays se sentirem mal”, entende com naturalidade sem culpa que pode ser gay ou não. “No momento certo você saberá”. Os dois, o traficante e o jovem aprendiz, trocam experiências e ensinamentos. É uma fábula Spike Lee de ser à moda de “Boyhood”, de Ricard Linklater e “Um Sonho Possível”, de John Lee Hancock, claro que cada um no seu quadrado.

O longa-metragem prioriza única e exclusivamente a premissa-conteúdo do discurso do que a forma que apresenta. Apesar das interpretações irretocáveis (sentimos suas dores, anseios, medos, impotência, vontades e submissão) de enfrentamento silencioso de “não mais que três palavras”, melancólico, tristonho, depressivo, apático, resiliente, desanimado e desesperançoso dos três Chiron, sua narrativa novela é amadora, artificial, anti-naturalista e fica “chato depois de um tempo” (parafraseando um dos próprios diálogos), optando pela manipulação sentimental como um clássico de Mozart que infere a “Ave Maria” e apelativo-afiado quando troca a “Suíça pela solução prática sem leis do Brasil” (a conversa vem de um vendedor de drogas). Busca-se a facilidade da estética visual, com o close demorado e estendido nos detalhes.

É uma sucessão de clichês-artifícios técnicos-angulares-fotográficos que são experimentos como um aluno iniciante e fascinado por novas descobertas em uma faculdade de cinema (achando realmente que está “inventando a roda” – seus focos e desfoques e câmera subjetiva). Até mesmo nas reações com os coadjuvantes, “Moonlight – Sob a Luz do Luar” reverbera frágil ingenuidade em interpretações forçadas quando “implicam com Little, o obrigando a ser firme”. Mas ele não revida com a violência da vingança, só com inocente brincadeira-picardia, oferecendo assim, praticamente o rosto para ser “abatido”.

Chiron vivencia seu caminho (parecendo um Chris, de “Todos Odeiam o Chris”, só que aqui não há nenhum descanso no humor) com suas observações-percepções-influências de meio a seu redor. A mãe ausente viciada em Crack. O bullying na escola. Os jogos de futebol. A responsabilidade em ser adulto antes do tempo. Em cuidar da casa. Os pesadelos. Os conflitos fornecem leveza quando dança livremente na escola. Ele tenta arduamente sobreviver. Sem bebidas e drogas. E controlar a raiva que a cada dia cresce mais dentro dele. E quando tudo parece estar perdido, que “às vezes o choro é tanto que acha que vai secar por dentro” e que “queria fazer muitas coisas que não fazem sentido”, “um vento ótimo o faz relaxar e o coração bater mais rápido”, o deixando “azul sob a luz do luar”. Sempre o Universo e o próprio roteiro daqui com sua máxima de “morde e assopra”. Em seu entorno, tudo é superficial. Verdade humanizada e realidade só mesmo em Chiron.

Na fase adulta, por completo, o medo já se instaurou e o sonho da mudança desapareceu. Com a máscara social é mais fácil suportar o mundo “conquistando gatas afrodisíacas”. O tempo-elipse narrativo muda, mas os gatilhos comuns sentimentais e preguiçosos são os mesmos, como o close na arma para reiterar sua entrada no crime. Até que o passado o “encontra” com ligações de pessoas “fantasmas” (que o despertam da inércia para revisitar a própria vida abandonada) como uma redenção e uma oportunidade de acerto de contas. A música fica mais perceptível e metafórica, como “Cucurrucucú paloma”, na voz de Caetano Veloso, esta que já foi trilha-sonora de um filme de Almodóvar, e pela voz rasgada da musa Aretha Franklin. Mas é com “Hello Stranger”, de Barbara Lewis, que a sinestesia realmente acontece. Quando a timidez impede de dizer e gera a dificuldade de se expressar, esta música traduz perfeitamente o momento.

“Moonlight – Sob a Luz do Luar”, como já foi dito é um filme sobre o social, sobre a necessidade de sobreviver quando se é pobre, negro e gay. Com altos e baixos, em uma intercalada gangorra, o longa-metragem, que está indicado em oito categorias (incluindo Melhor Filme) ao Oscar 2017, e que foi o vencedor no Globo de Ouro de Melhor Filme, seria o típico azarão “Indomável Sonhadora”, de Benh Zeitlin (indicado em 2013), se não fosse a obrigatoriedade contemporânea em proteger os minoritários do sistema industrial hollywoodiano. Os baixos configuram-se na forma e os altos, as magníficas interpretações dos três atores que interpretaram Chiron, cada um com seu tempo, mas todos com uma inquestionável competência.

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