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Um velho e seu cão

Por Francisco Carbone

A Mostra Aurora da Mostra de Cinema de Tiradentes 2017 é encerrada com seu melhor longa, uma melancólica história que se descortina de maneira paulatina e sem qualquer pressa; pouco mais de uma hora de duração que não precisa mais do que isso pra ser bem direto na observação da relação entre dois seres, um velho e uma espécie de andarilho sem rumo, ser itinerante, ser pedinte. A dupla formada por Luiz Felipe Fernandes e Alexandre Baxter dirige e roteiriza o filme de maneira microscópica, e aos poucos vai se cercando das referências possíveis para não somente contar sua história, como também jogar as pistas da metáfora representada no seu ‘storytelling’, um arco dramático dos mais completos vistos na Aurora esse ano.

Pato é um homem-cão, e um cão vira-lata, que vaga por matagais, ruas e becos sem dono, de olhar baixo e sem incomodar ninguém. Ele só quer um café, ele só quer vender suas latas, ele pode dormir na rua, não tem problema. Ao encontrar seu Zé Grande na beirada de um campo de futebol de várzea, surge a chance de Pato ser alguém. Um goleiro sem tino, e um treinador sem pulso, dois polos solitários que acabam se unindo pela força das circunstâncias. A câmera de Fernandes e Baxter captam momentos que vão unindo essas duas criaturas errantes: a feitura de um bule de café, o recolhimento da rede da trave, a arrumação de bola e uniformes no vestiário onde ambos acabam dividindo um teto. Seu Zé Grande tem família, um filho, netos, mas prefere a companhia silenciosa de seu homem-cão, que tal qual se apresenta e vira-lata do jeito que é, não tem maior emoção que não a de dormir aos pés de seu dono, agradecido por mais um dia e por mais uma refeição. Uma amizade pura que só se traduz com igual pureza de doação.

O encontro e a parceria entre Rômulo Braga e o veterano Rui Resende é daquelas milagrosas, cheias de carisma e talento que recusam seus nomes. Em estado de quase total silêncio, Seu Zé e Pato caminham e são defendidos por atores em pleno exercício de seus ofícios; especialmente Braga vai se tornando um nome cada vez mais importante e necessário da atual cena do cinema brasileiro, colaborando em filmes representativos e muito pontuais, na ponta de acontecer a qualquer momento. Talvez sua hora seja agora, nessa interpretação minimalista e hiper econômica, um homem perdendo sua valias e se transformando em animal a olhos vistos, mas que claramente prefere ser um. O carinho extremo com o qual Fernandes e Baxter tratam dessa relação e particularmente de Pato é a chave de entrada de um filme delicado e às vezes até pouco simpático mas que deixa sua marca indelével como um sopro metafórico de mais uma amizade improvável, entre um homem e um homem. Só que cão.

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