Liberdade ainda que tardia

Por Francisco Carbone


Ivan saiu da cadeia, mas continua preso a uma tornozeleira eletrônica. A curadoria da Mostra de Cinema de Tiradentes desse ano cometeu alguns equívocos, e um deles foi ter selecionado à competição Aurora dois filmes tão gêmeos quanto ‘Baronesa’ e ‘Corpo Delito’ na mesma sessão, e justamente a principal. Ainda que bivitelinos, a irmandade que une os dois longas vão além da trama e da ambientação, que por si só já deveria ser questionada e debatida. Ao também ter em sua carta de produtores e apoiadores pessoas dos mesmos núcleos criativos, bate uma espécie de ressaca da seleção e completo desentendimento do que se pretendia com essas semelhanças em excesso. Não me levem a mal: o longa de Pedro Rocha é muito bom, assim como também é bom o filme de Juliana Antunes. Mas chega a esbarrar num desserviço unir dois filmes quase complementares no mesmo barco, e vê-los navegar juntos.

No que o filme de Pedro tem de particular, aqui se observa a partir da ótica assumida do documentário, uma parcela de moradores da periferia que estão e não estão ao mesmo tempo. Ivan está em liberdade condicional, vivendo atrelado a um anel de segurança que monitora seus passos em casa e no serviço que presta sob orientação do governo, e se sente um animal enjaulado, uma bomba prestes a explodir, mesmo tendo a consciência de que já esteve em condições muito piores. Mas mesmo faltando tão pouco tempo para terminar sua pena, Ivan se ressente de não ser vigiado, de ser livre, de poder fazer o que quer e ter seu direito de ir e vir. Parece muito atento ao que fez e ao privilégio que tem, e ao mesmo tempo se desespera por não ser ainda mais. Sua convivência com a companheira, a filha, a mãe e os agentes de condicional pautam a narrativa documental, além de paralelamente observarmos a rotina de um outros amigos de Ivan, que lidam também eles com aspectos muito contraditórios do que é ter liberdade.

O olhar de Rocha não poderia ser mais acertado, sempre focando em Ivan em planos fechados e seus pares em aberto, cada vez mais. Como se constatando o óbvio, Rocha não faz um filme redundante e chato ou frio. Apesar de observar um universo que já vimos outras vezes e não apenas nessa edição da Mostra, ele tem muita confiança na propriedade do que precisa dizer. A história de Ivan é particular embora reflita muitas realidades; seu foco estar nela não significa que ela seja a totalidade dos casos que envolvem libertos em condicional. Essa propriedade muito segura que o diretor estabelece em sua produção deixam claras suas intenções e sua escolha por contar essa história tão comum a tanta gente, mas nunca estabelecida como natural ou única. Ivan é um indivíduo e como tal merece ser observado; ‘Corpo Delito’ o respeita e divide com ele uma ânsia de liberdade rara.

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