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Quando irresponsabilidade se confunde com sensibilidade

Por Francisco Carbone

Dentro de mim mora um silêncio. De noite, ele vai com suas garras, à caça de algo pra gritar. Literalmente não sei por onde começar. Leo Pyrata escolheu uma armadilha pessoal, como não cair junto nela? Abrindo e recheando sua narrativa de estreia em longa-metragem com frases de Virginia Woolf, Simone de Beauvoir, Camile Paglia e Bertold Brecht, utilizando-as como uma espécie de abertura de capítulos no qual propõe contar uma história, Pyrata se propõe a julgar através dele seu próprio roteiro, além de direcionar posicionamentos. Na abertura de “Subybaya”, que integra a competição Aurora da Mostra de Cinema de Tiradentes 2017, uma festa numa casa/apartamento já se mostra “quente” ao chegar da câmera.

Nudez feminina, beijos quentes entre todos, dança, uma ‘dance music’ em rotação reduzida, bebida, pouca conversa; muita ação, ainda que repetitiva. É uma festa, enfim… e todos parecem a vontade. Menos Clarice. Clarice não parece a vontade nem na festa, nem na aula que dá, nem em sua própria casa, nem no encontro com a amiga, nem em encontros com outros homens, nem na companhia dos pais. Clarice escolheu a mudez, e segue a vida observando e reagindo a encontros e diálogos. Talvez cansada, talvez inerte… Clarice existe, e parece bastar.

O multi-homem Pyrata já atacou nas 11 e habita uma espécie de ‘entourage’ ao lado de muita gente na cena do audiovisual brasileiro contemporâneo, já tendo sendo visto em multi-funções em tantos filmes (a lista da nata dos diretores brasileiros da atualidade se encontram nos agradecimentos finais créditos), então é fácil de se imaginar que se seja alguém querido, talentoso e de excelente entrada nos lugares por onde circula; eu mesmo tenho diversos amigos que conhecem o Pyrata, e alguns são amigos dele também. Isso tudo talvez justifique o fato de seu hiper-complexo filme ter conseguido entrada numa Mostra que colocou a multiplicidade de gênero e do foco feminino algo particular, mesmo sendo uma opção que claramente provocaria revolta no próprio foco. Ou talvez tenha sido exatamente essa a opção da curadoria: não fugir do debate, da discussão e sobretudo da polêmica, mesmo que ela resulte de um produto tão esquematizado. Ainda que tenha um discurso libertário.

Na ânsia de tentar entender o feminismo e o feminino, não adianta assumir não ter conseguido; se você reproduz discurso equivocado e extremado, você não somente está se colocando num foco que não é seu e do qual você desconhece, como criando barreiras num movimento não somente muito atacado de fora, mas que ainda encontra resistência e desagravo mesmo dentro. Acender um fósforo e escolher estar com um galão de gasolina nas mãos não é saudável, mas é uma forma de preceder um incêndio muito bem programado, e proposital. Se Pyrata humildemente se assume um ser que mesmo errando tenta compreender, deveria começar a compreensão sabendo onde se posicionar nesse jogo, e talvez o lado certo fosse nem tentar, ainda mais num momento tão já naturalmente inflamado como esse.

No fim das contas, os dispositivos de quebra de quarta parede parecem não apenas já vistos, como reforçam a ideia de estar se camuflando dos ataques que obviamente viriam – ele não é bobo, ninguém o é, nem a curadoria de Tiradentes. Fazer um filme é uma forma de escolher ter um discurso; se você escolhe usar sua inabilidade para deflagrar um entendimento que você assume não possuir, arque com as consequências do resultado de suas ações. Independente do bom registro empreendido por Bruna Chiaradia e da belissima fotografia de Lucas Barbi, tudo cai por terra quando você decide fazer um filme para “provocar e debater”, quando você se assume sem conhecimento e entendimento. Provocação por provocação? Choque pelo choque? Nenhum movimento precisa de tal dissolução irresponsável de discurso. Uma boa estratégia para Pyrata começar a se sensibilizar depois dessa desastrada primeira experiência é ouvir. E deixar a fala para quem a tem, de direito.

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