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Uma gema cotidiana perdida entre estampidos políticos

Por Francisco Carbone

Quatro trabalhadoras da cidade em suas relações cotidianas de sobrevivência. Uma trabalhadora do campo do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Poesia arrancada como erva daninha do solo de nosso tempo. E pensar que vi Renan Rovida como ator no curta ‘Ferroada’ na Semana dos Realizadores, e agora ele é um realizador também. Dividido em blocos, cada um focado em uma personagem e nominado diferentemente, ‘Sem Raiz’ impacta de saída. Sem raiz. Sem emprego. Sem lucro. Sem moradia. Sin comunidad. Os inter títulos, olhando agora de fora já deixavam claro o rumo para onde o filme iria, o discurso de Rovida no palco também. Agora, olhando com distanciamento, tudo faz. Mas filmes são pra se deixar levar, e eu fui com ele. Uma mulher arranca tufos de grama da terra enquanto acende um cigarro. Uma mulher xinga patrões enquanto anda pela ruas. Uma mulher toca bateria de forma desafinada. Uma mulher mostra um apartamento vazio. Uma mulher dá aula a uma classe de dois alunos. Cinco mulheres diferentes, que serão abordadas, radiografadas e finalizadas, todas entrecortadas pela primeira delas, uma lavradora.

Por estar muito submerso nas duas primeiras passagens, não percebi o teor político crescendo, nem saquei de cara que o filme na verdade era inteiramente um bicho político. Mas na quarta passagem, a da corretora de imóveis que não tem ela mesma um lugar próprio, o discurso passa a gritar, e a última passagem é tão irritantemente ingênua, quase antiquada, que me faz saltar do objeto filmado. Ainda Rovida filme muito bem e apesar de não ter nada contra filmes políticos, a impressão que fica é a de que sobra talento pra contar histórias mas falta talento para contar essa história, que tem uma cólera meio anacrônica.

No entanto como já dito, Rovida já nasce um diretor muito promissor e muito preocupado em questões de gênero. Seu filme é majoritariamente um produto que se debruça sobre o feminino, que aponta o masculino como algo com tintas escuras, mas que não deixa de pincelar de cinza suas heroínas, defendidas na maioria com excelência non stop. A segunda passagem, cuja protagonista descobrimos ao final ter um nome lindo e bastante significativo que não convém contar, me levou as lágrimas durante toda sua trajetória, que culmina num belo encontro casual na rua. Essa passagem e a da vingativa mãe corretora de imóveis, que depois de uma decepção desce ao patamar do filho e lhe prega uma desforra (a tornando humana), elevam continuamente o longa, que se não é perfeito e não sabe se expressar em seu lugar político, ao menos é pontilhado de beleza cotidiana, onde tanto é ajudado por Carlota Joaquina, Ruth Melchior e pela fulgurante Maria Tereza Urias. O filme integra a competição Aurora da vigésima Mostra de Cinema de Tiradentes 2017.

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