um-filme-de-cinema-poster

Um perigoso filme infantil

Por Francisco Carbone

“Pai, o que é cinema?”. Um ano depois de arrebatar público, crítica e juri com seu explosivo ‘Jovens Infelizes ou Um Homem que Grita Não é um Urso que Dança’, Thiago B. Mendonça vai enfrentar o rolo compressor ensandecido de todos acima com seu novo filme, o positivamente ingênuo ‘Um Filme de Cinema’, que está na competição da Mostra de Cinema de Tiradentes 2017. A verdade é que Mendonça atirou exatamente no alvo que quis, e não acredito que ele estivesse pretendendo algo superior a isso. No anúncio do longa, avisou “estou aqui porque queria fazer um filme com as minhas filhas, para as minhas filhas”, e isso foi feito. Um filme que aponta lados infantis para lidar com a visão de um universo adulto demais para a compreensão dos pequenos, e talvez por isso tenha a multidão enfurecida no seu calcanhar. Não que não mereça, Mendonça aponta lugares demais e muitos talvez desnecessários para a criação ou continuidade da narrativa, apenas promovendo debates no extra campo que prejudicam sua simplicidade.

O filme coloca em cena as próprias filhas de Mendonça como duas irmãs, e a mais velha delas precisa completar um trabalho escolar de artes no qual ela cisma de fazer um filme. Como o pai, um diretor em crise. A despeito da resistência inicial, Bebel acaba recebendo uma pequena câmara e sai por aí filmando a si, aos seus amiguinhos na escola, à profissionais que trabalham ao redor dela, adultos em geral, sem ter muito bem uma narrativa ou uma trama concebida, mas com uma representação que a identificaria como uma espécie de Eduardo Coutinho mirim. Ela faz basicamente as mesmas perguntas às pessoas: “qual o seu sonho?”, “você é feliz?” e “o que é a vida?”, todas com respostas sem muita inspiração. Mas isso não vem ao caso. O calcanhar de Aquiles do longa é a forma pueril e semi-irresponsável com o qual ele insere alguns personagens dos entrevistados, não à toa relegados a estereótipos como babá, empregada e porteiro; principalmente a primeira, encarada com um misto de revolta arcaica com um discurso igualmente antiquado e agressivo.

Mas não dá pra dizer que Thiago não se esmerou onde podia, do ponto de vista técnico e da condução de cenas lúdicas. A trilha sonora é nunca menos que deliciosa, tanto a incidental quanto a gama de canções compostas para o longa, todas muito bonitinhas e a maioria interpretada pelas próprias crianças do elenco. Algumas cenas marcantes mantem seu impacto para além da sessão (um pesadelo de Bebel logo no início do filme, um surrealista material que pincela horror psicológico a uma narrativa tão singela), e impedem que ‘Um Filme de Cinema’ cumpra seu papel de leveza e desprendimento com qualquer pretensão maior, graças a cenas poderosas como essa. Mas é também essa chave ser acionada que libera o filme para ser observado sob um aspecto mais taxativo, e o filme ainda vai pouco a pouco vai entrando numa lógica de roteiro muito repetitiva.

Acaba por funcionar, mas as feições ora encantadas, ora revoltadas na saída da sessão vendem a ideia de que a intenção de ser livre de debates acalorados e apenas entregar um longa infantil não se concretizou; parece que o (pequeno?) nome que Thiago B. Mendonça já começou a desenhar como assinatura pelo menos por aqui já barra seus filmes da despretensão.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados