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Um olhar definitivo sobre um homem fascinante

Por Francisco Carbone

Claudia Priscilla e Pedro Marques provavelmente tem em Jean-Claude Bernardet o misto de admiração, respeito e fascínio que todos nós temos e nutrimos. Francês naturalizado no Brasil há décadas, viria a se tornar uma das maiores autoridades da crítica de cinema no país, referência para qualquer geração com seus textos, ensaios e livros. Há alguns anos, Bernardet começou a receber convites para exercitar suas veias dramáticas, como ator, em participações especiais. Que foram crescendo, crescendo, crescendo… paralelamente a isso, também no próprio crescia a vontade de se doar mais, e encontrando com a maior parte dos cineastas descritos acima, Bernardet foi vendo esse sonho acontecer. Mas quem é na intimidade Jean-Claude Bernardet?

O documentário “A Destruição de Bernardet”, que participa da sessão Olhos Livres da Mostra de Cinema de Tiradentes 2017, conta que Jean-Claude Bernardet está velho e doente. O maior crítico de cinema vivo do Brasil se reinventa através da sua própria destruição. O filme, que transita entre a ficção e o documentário, utiliza dispositivos inusitados para acionar a memória da personagem e narrar a trajetória de um intelectual que se transforma em ator aos 70 anos. Não se trata de uma biografia convencional e sim de um projeto construído com o próprio personagem ao longo da filmagem. Um ensaio sobre a apropriação do corpo.

Bebendo nas fontes de Carlos Nader e do Pingo D’Água de Taciano Valério, além de passear por Cristiano Burlan e Kiko Goiffman, começa uma investigação carinhosa sobre tanto o imaginário de Bernardet como sobre a vida mundana, o dia a dia do mesmo. Visitas a hospitais, visitas recebidas por ele, diálogos e desconcertantes sobre seu passado, presente e futuro (???), de como chegou ao Brasil, de revelações sobre seus sonhos e desejos, ou seja, o material típico de um documentário desconstruído ao mesmo tempo que gradativamente vá colocando os pés pra fora do lugar esperado. Encontros com companheiros de faculdade revelam (ou não) a natureza de suas relações e acabam descortinando um lado de Bernardet que talvez exista para quem o rodeia, mas cujo alto teor de deboche e/ou sarcasmo vai criando uma personalidade talvez muito mais afável do que o homenageado gostaria de ser visto. A rabugice calculada, o olhar agridoce sobre seu entorno e sobre si mesmo, aos poucos de revela um castelo de cartas até bem resistente, mas que pessoas certas sabem como derrubar. E é nessa pesquisa pessoal que Claudia e Pedro acabam reunindo demonstrações discretas da família que Bernardet reuniu em torno de si.

Mais eficiente do que o longa de Valerio que já era uma ode a Jean-Claude e utilizando a cena emblemática que o cineasta cearense conseguiu extrair dele para seu filme, saímos da sessão com a mesma sensação agridoce na qual Bernardet constroi sua rede de relações. Repleto de momentos reveladores e de passagens repletas de poesia singular (sem jamais ser chato ou pretensioso), ‘A Destruição de Bernardet’ não é um grande objeto de estudo de cinema ou uma aula sobre a observação de um crítico poderia formar outros, mas uma carta de amor a alguém que influenciou tantos que escrevem como eu, e que pavimentaram a estradinha para que caras como eu tenham (ainda que de maneira enviesada) algum respeito e alguma admiração. Graças a enigmas em forma de pessoa como Jean-Claude Bernardet.

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