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O Percurso de Helena Ignez e Leandra Leal: A Transcrição dos Diálogos

Por Francisco Carbone

Em 2017, ano este que a Mostra de Cinema de Tiradentes completa duas décadas, as homenageadas são a atriz LEANDRA LEAL (“Enfim Leandra Leal”), esta que já foi homenageada por seu percurso no Cine Ceará; e a “mulher em si” HELENA IGNEZ, diretora utópica veterana, uma das musas do movimento cinematográfico Belair, produtora fundada por Rogério Sganzerla e Julio Bressane. Ela, um ícone do Cinema Marginal tão importante quanto os demais pioneiros do movimento. Helena Ignez, que dirigiu “Ralé”, filme este também na seleção da Mostra em questão aqui criou um novo estilo de atuar: debochado, extravagante, a violência feminina.

O Vertentes do Cinema participou do encontro no sábado agora, dia 21/01, no Cine Teatro Sesi, com as duas musas e exponentes do Cinema Brasileiro por nosso vertenteiro Francisco Carbone. Confira abaixo a transcrição do que foi dito no Seminário-debate “O Percurso de Helena Ignez e Leandra Leal”, focado na trajetória delas, suas escolhas como atrizes e suas transições para a direção.

Na mesa, o cineasta carioca Murilo Salles; o crítico de cinema carioca do “O Globo”, Daniel Schenker, a atriz-diretora homenageada Helena Ignez; o mediador Pedro Maciel Guimarães, crítico de cinema e curador Mostra Tiradentes; a atriz, produtora e diretora homenageada Leandra Leal; e Ruy Gardnier, Jornalista, pesquisador e crítico de cinema e música.

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Pedro: Gostaria de ouvir vocês falarem sobre as semelhanças e o jogo de atriz de Helena Ignez e Leandra Leal para com Sonia Silk, a personagem e o projeto de Bruno Safadi e Ricardo Pretti.

Leandra: Bruno e Ricardo tiveram a ideia e a vontade desse projeto, e me procuraram com a proposta da gente “viver e reviver” algo que a gente não viveu mas que ironicamente temos saudade.

Helena: no “O Fim de uma Era” eu fiz a voz de Leandra, e esse convite não foi a toa; me orgulha muito representar a Leandra porque eu acompanho a carreira dela desde A Ostra e o Vento, e acho o título do filme excelente porque é exatamente isso, o retrato do fim de uma era linda.

Daniel: vemos a Belair que une as duas, através do Sonia Silk de Helena e representado por Leandra na trilogia. Duas atrizes que também são diretoras, e duas atrizes que se entregam visceralmente desde politicamente até seus próprios corpos, porque as duas se jogam em trabalho corporal unindo seus trabalhos a algo de origem mais teatral. Focando mais em Leandra que passeia entre gêneros e portes e de mercados diferentes, sócia de uma produtora, comandando um teatro e completamente diversa dentro do cinema, como atriz. Desde o início, Leandra trabalha bem seu corpo entre os espaços cênicos, da ilha em Ostra, dos bairros do subúrbio em “Eden” e “O Lobo Atrás da Porta”, do apartamento de Copacabana em Mato sem Cachorro, dos espaços fechados em “Nome Próprio”. Além da relação de suas personagens e seus corpos em todos esses filmes, da jovem Marcela a madura Rosa. Tem também a habilidade de Leandra da importância q ela dá as reações dela para as falas dos personagens, que isso sim vitamina suas performances; essa é uma de suas maiores virtudes, saber reagir e construir sua interpretação nas pausas e enquanto espera seu momento. Foi nos silêncios que Leandra criou sua história.

Murilo: vim homenagear a Leandra, além de destacar a importância do feminino para os cineastas. Se você tem minimamente uma sensibilidade e quer atingir algum grau de verdade, o ato mais autoral de um cineasta é fazer parcerias com seus atores e o aprendizado que tive com eles não tem preço. A Helena Ignez fez o “O Padre e a Moça”, e esse filme que assisti quando garoto me fez querer fazer cinema, e também fez com seu marido “Mulher de Todos”, um filme para uma atriz inacreditável numa personagem inacreditável. Helena e Leandra são duas atrizes radicais, de suas entregas e suas formas de lidar com suas carreiras e vidas. Temos uma formação de ver trabalhos técnicos das grandes atrizes americanas, mas atuar é além de técnica, é se entregar. E aproveitando a homenagem da Mostra para falar do meu “Nome Próprio” e de como a crítica no Brasil é essencialmente masculina e tachou como algo histérico, porque analisado do ponto errado, provavelmente pelo gênero errado.

Ruy: o trabalho delas tem a ver com legado, porque seus trabalhos como diretoras vendem a ideia de herança, da passagem do tempo, da reconstrução do próprio tempo, entre “Ralé” e “Divinas Divas”, de como elas envolveram o universo escolhido nesses últimos seus filmes em mais uma coincidência de carreiras. Lembro que uma vez Helena me contou numa entrevista que Joaquim Pedro de Almeida pediu a Helena para atuar “sem os braços” em “O Padre e a Moça”, ser uma espécie de ‘corpo presente ausente’, que tivesse um it independente do gestual. Já que o corpo é tolhido e reprimido, é sua voz nos diálogos com Paulo José que transcendem a fúria e a paixão quase demoníaca que transformam esse incrível longa. Em outro momento, o encontro de Helena e Belair estavam em outro lugar, de um lugar de ações de corpos e o que se buscava ali era acabar com o corpo e a alma, escavar corpo e alma, porque isso era necessário para construir os estilhaços de energia vital necessária para o movimento da época construído pelo movimento deles como um todo, que em Bandido da Luz Vermelha e Mulher de Todos ela pode ser vista como máquina de tesão através dos filmes, com inocência, com sexo, com entrega. Algo na mesma mensagem da Nouvelle vague japonesa ou o próprio Godard, que também destroem seus personagens, acabar com a integridade desses personagens, mas que no Brasil foi traduzido por Helena nessa confluência de explosões que ela tornou único.

Helena: essas personagens foram uma resposta ao patriarcado e ao machismo da época, uma forma de sacudir da forma que podíamos o olhar machista e masculinizado dos anos 60 e 70.


Perguntas da plateia

O que te levou a fazer “Divinas Divas”? 

Leandra: Eu assumo q há muito tempo que queria dirigir e ao mesmo tempo eu sempre tive muito respeito pela arte de direção. Quando eu reencontrei as divas, eu entendi que só eu poderia fazer essa história tão autoral e tão nesse lugar de homenagem a essas artistas, que fala muito delas, mas fala muito de mim também, porque também fala muito de amor, de família, das escolhas. Eu queria fazer um filme pessoal, e eu acho que o Divas fala muito sobre liberdade, sobre as causas que eu me envolvi, e o filme traduz a vontade de ser quem se é, na sua totalidade de potência.

É engraçado notar que, apesar das homenagens da edição da Mostra desse ano, eles conseguiram juntar uma mesa onde apenas homens foram convocados para o lugar de fala, justamente quando as homenagens são mulheres, além do pouco espaço dado nas mesmas falas ao ofício de diretoras que ambas hoje também exercem.

Leandra: muito boa essa sua fala, e nada contra o talento dos escolhidos para a mesa, mas nosso país tem sim um número de críticas de cinema que são apagadas como também o são as diretoras, que tão pouco lembradas são na nossa história.

Helena: é incrível como mesmo no período da Belair o esforço feminino foi apagado da história e pessoas como eu e Maria Lúcia Dahl e tantas outras passamos por esse lugar no cinema como geralmente os homens colocam as mulheres: apagadas.


Uma História Cronólogica

 

A cada ano, a Mostra de Cinema de Tiradentes homenageia ícones de nossa História cinematográfica. Em 1998, foi a vez da diretora Carla Camurati e o ator Paulo José com o tema “O começo”. Em 1999, Denoy de Oliveira (in memorian), Helvécio Ratton e Patrícia Pillar com “Aprendendo a caminhar”. Em 2000, Carlos Reichenbach com “O cinema na praça”. Este também foi o primeiro ano da mostra competitiva AURORA. “NÓS QUE AQUI ESTAMOS POR VÓS ESPERAMOS”, de Marcelo Masagão levou a estatueta. Em 2001, a “odisseia veio do espaço” com o tema “Mulheres em cena” pela diretora Ana Carolina, a atriz Odete Lara e o documentarista Carlos Nader, e o filme premiado “O AUTO DA COMPADECIDA”, de Guel Arraes. No ano seguinte, Júlio Bressane, José Lewgoy e Kiko Goifman com o tema “Cinema de autor e de ator”. E o filme, LAVOURA ARCAICA, de Luiz Fernando Carvalho. Na sexta edição, os homenageados foram Eduardo Coutinho, Gianfrancesco Guarnieri e Inês Cardoso com o tema “Heróis do cotidiano no cinema brasileiro” e SEPARAÇÕES , de Domingos de Oliveira, como longa-metragem premiado. Em 2004, Nelson Pereira dos Santos, Paulo César Pereio e Marcelo Tas com “Modos narrativos do cinema brasileiro” e “O PREÇO DA PAZ”, de Paulo Morelli. Na oitava edição, Walter Lima Jr. e Cao Guimarães com “O primeiro cinema” e FILHAS DO VENTO, de Joel Zito Araújo. Em 2006, Ruy Guerra e Eder Santos com “Livre Pensar” e “DEPOIS DAQUELE BAILE”, de Roberto Bomtempo.

Na décima edição, iniciando-se o ciclo de uma nova década, os homenageados foram Beto Brant e Fábio Carvalho, Lazaro Ramos e Matheus Nachtergaele com o tema “Vitalidade do cinema brasileiro” e NOEL – POETA DA VILA, de Ricardo Van Steen, o filme premiado. No ano seguinte, os atores Rosane Mulholand e João Miguel com Juventude em Trânsito e “MEU NOME É DINDI”, de Bruno Safadi. Em 2009, o diretor José Eduardo Belmonte com “O Personagem e seu lugar” e “A FUGA, A RAIVA, A DANÇA, A BUNDA, A BOCA, A CALMA, A VIDA DA MULHER GORILA”, direção de Marina Meliande e Felipe Bragança. Em 2010, o diretor Karim Ainouz com “Paradoxos do contemporâneo” e “ESTRADA PARA YTHACA”, de Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti, como longa-metragem vencedor. Na décima quarta edição, Paulo Cezar Saraceni e Irandhir Santos com Inquietações Políticas e OS RESIDENTES, do mineiro Tiago Mata Machado.

Em 2012, o ator Selton Mello com o tema “O ator em expansão” e filme premiado “A CIDADE É UMA SÓ”, de Adirley Queirós. Em 2013, a atriz Simone Spoladore com “Fora de centro” e “OS DIAS COM ELE”, de Maria Clara Escobar. Na décima sétima edição, o ator Marat Descartes com “Processos audiovisuais de criação” e “A VIZINHANÇA DO TIGRE”, de Affonso Uchoa. Em 2015, a homenagem ficou por conta da atriz Dira Paes, discutindo o tema “Qual o lugar do cinema?” e “MAIS DO QUE EU POSSA ME RECONHECER”, de Allan Ribeiro. No ano passado, na décima nona edição, o cineasta Andrea Tonacci com “Espaços em conflito” e “JOVENS INFELIZES OU UM HOMEM QUE GRITA NÃO É UM URSO QUE DANÇA”, de Thiago B. Mendonça.

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