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Um Divino Documento Álbum de Família em Uma Carta-Homenagem

Por Fabricio Duque

Uma das características marcantes da atriz carioca Leandra Rodrigues Leal Braz e Silva, ou mais conhecida como Leandra Leal (de “A Ostra e o Vento” – seu primeiro filme; “Nome Próprio” – que ganhou a estatueta de Melhor Atriz no Festival de Gramado; “Éden” – que também arrebatou o prêmio no mesmo festival de cinema mais famoso do sul brasileiro) é sua versatilidade em interpretar papéis tão diversos e dissonantes uns do outros. Ela busca experimentar limites, até mesmo trabalhar com diretores “não muito agradáveis” (palavras dela em uma entrevista exclusiva ao Vertentes do Cinema no Cine Ceará) como forma de crescimento profissional e estímulo ao novo. Tanto que é uma das responsáveis pelo movimento Sonia Silk, que revisitou a era Belair na trilogia “O Uivo da Gaita”, “O Rio nos Pertence” e o “Fim de uma Era”.

Com trinta e quatro anos, Leandra galgou sozinha o caminho de se tornar uma das mais talentosas atrizes de seu tempo, mesmo sendo filho da veterana da atriz Ângela Leal. Sim, esta apresentação é mais que necessária. Obrigatória, na verdade. Tudo por causa que estreia como diretora com o documentário “Divinas Divas”, uma carta-homenagem-diário livre, despretensiosa, particular e pessoal, sobre as Divas transformistas que participaram ativamente desde sua infância, e que perambulavam no Teatro Rival (“o teatro da família” e a “universidade” – que em 2004 completou setenta anos), casa de show herança de família.

“Divinas Divas”, que está na sessão Homenagem da vigésima edição da Mostra de Cinema de Tiradentes 2017, representa em sua narrativa uma colagem honesta e leal de tudo que Leandra aprendeu. A câmera próxima (que acompanha as personagens em plano sequência sem cortes permite que adentremos na intimidade bastidores destas divas completas que dançam, cantam, interpretam e representam), a narração existencialista-introdutória por memória-sinestesia (da própria diretora – emocional sem ser clichê e sem manipular nosso lado sentimental), os ângulos não comerciais e não ortodoxos (exemplo, por cortinas) indicam sua veia mais independente e uma influência máxima da época Belair de ser. É abordado a primeira geração de artistas travestis do Brasil. Rogéria (“o travesti da família brasileira” – “mamãe passou hormônios demais para mim” – “o excesso de ser Rogéria”), Valéria, Jane Di Castro, Camille K, Fujica de Holliday, Eloína dos Leopardos (responsável por trazer ao Brasil o show de stripper masculino para a Galeria Alaska), Marquesa e Brigitte de Búzios, que formaram, na década de 1970, o grupo que testemunhou o auge de uma Cinelândia repleta de cinemas e teatros.

O filme acompanha o reencontro destas artistas elegantes (moda era “as roupas do século dezoito”), finas e de comportamento aristocrático (“que queriam ser mulheres” “com a peruca da Darlene Gloria” e se “influenciavam nas vedetes de revistas” e ou na “diva Maria Callas” e ou na “Brigitte Bardot” e ou “Scarlett O’Hara”) para a montagem de um espetáculo, trazendo para a cena as histórias e únicas lembranças de uma geração que revolucionou o comportamento sexual e desafiou a moral de uma época. Cada uma possui uma personalidade e “temperamento” diferente da outra, e é exatamente isso que faz com que elas se complementem. “Foi difícil (a vida), mas valeu a pena!”, disse.

As Divinas Divas transbordam humor de efeito, politizado, de português rebuscado e corretíssimo, agressivo, direto, sem papas na língua, afiado, sarcástico, defensivo, altivo, apoteótico e imponente, em suas percepções e opiniões sobre tido e todos. Quando perguntada sobre os travestis de hoje, uma diz: “Vejo tanta coisa na rua que chega a assustar”. Elas no dia-a-dia são “caretinha”, mas “quando botam um brinco, baixa a mulher” e todas no “palco fazem o que querem”. “Teatro era missão”, diz-se.

“Divinas Divas” é natural, orgânico, “uterino”, emocionante, sensível, nostálgico, saudosista, realista, espirituoso e perspicaz tem brilho purpurina, muita “pinta” e “batom vermelho”. Leandra consegue capturar sem excesso o ambiente “ensaio” “burlesco” que estas artistas (que quando algumas foram “amantes, sempre foram ótimas”) vivem cotidianamente, entre o Canto dos Cisnes, Les Girls, imagens de Paris em 1977, de Nova York em 1969, o Baile das Bonecas, As Bodas do Diabo, Bombshell, Gaiola das Loucas e o Scala Gay.

Vestidas de mulher, na “fronteira da confusão”, em plena ditadura de 1964 (e “Franco na Espanha em 1970”), estas “artistas do transformismo” brilhavam e “divertiam o Brasil e o Mundo”. E as “dificuldades não impediram de viver como queriam” (“escravas-cobaias dos hormônios” e “internações em sanatório” por serem “diferentes” – inevitável não inferimos ao filme “Bicho de Sete Cabeças”, de Laís Bodanzky). “Lutaram para ter a liberdade. Não tinham medo de nada. Bonita e feliz”, diz-se entre “Abandono”, de Roberto Carlos e “Walk on the Wild Side”, de Lou Reed. “A plástica resolve tudo”, diz.

“A arte é divina demais para ser normal”, filosofa-se com efeito. Sim, estas divas confiantes (que contam “vantagens” para a câmera e para uma as outras) são batalhadoras, guerreiras e militantes políticas para que a diferença seja considerada uma possibilidade de vida e para que cada vez a padronização plastificada seja modificada, quebrando paradigmas, limites e preconceitos. “Divinas Divas” passeia pela comédia da vida privada, pela melancolia de lembranças traumáticas, mas já cicatrizadas, como sendo uma cena de um filme de Federico Fellini.

É um filme como foi dito: despretensioso. Que deixa momentos, lembranças e idiossincrasias participarem como um álbum de família tão íntimo e pessoal para Leandra (de sua criação – conviveu, trocou costumes e “recebeu conselhos”). Ela, sempre leal, e magistralmente humana, documentou e perpetuou uma época da História de nosso Brasil e do Teatro Rival, um dos primeiros palcos a abrigar homens vestidos de mulher, dirigido por Américo Leal, avô da diretora. O filme traz para a cena a intimidade, o talento e as histórias de uma geração que revolucionou o comportamento sexual e desafiou a moral de uma época. Recomendado. Participou da seleção competitiva do Festival de Rio 2016, vencendo na categoria de Melhor Documentário.

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