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O mise-en-scène de vidas metalinguísticas

Por Fabricio Duque

Há cineastas que transcendem a barreira de meros realizadores de cinema em definidores de gênero, fazendo com que as obras sejam imediatamente identificáveis. O sul-coreano Hong Sang-soo (de “A Visitante Francesa”, com Isabelle Huppert; “Our Sunhi”; “Montanha da Liberdade”; “Você e os Seus”) é um destes mestres que conduzem o espectador pela simplicidade do tema abordado, instaurando a espontaneidade dos próprios movimentos da existência humana e aprofundando com naturalidade a complexidade das micro-ações decisórias da vida.

Em “Certo Agora, Errado Antes” passeia pelo elemento imagético da narrativa, revisitando momentos que são vivenciados em repetições encenadas, deixando livre novos detalhes que propositalmente perceptíveis (pela metalinguagem) não passam a ideia de loop e sim de uma metáfora que o ser humano possui em desejar o mesmo caminho sem alteração na jornada. Aqui, conversas semelhantes na mesma mesa de bar, no café e no parque-monumento ancestral típico turístico norteiam a estrutura no equilíbrio da história.

Sang-soo corrobora a autoralidade quando abre seus filmes com a mesma fonte das letras e com a mesma música. Pode ser observada como uma homenagem ao diretor Woody Allen. A câmera torna-se personagem, observando presencialmente e com aproximações diretas (esta outra homenagem ao movimento francês da Nouvelle Vague).

O roteiro é basicamente simples, porém está longe de ser simplista. Busca-se mais o classicismo raiz da arte cinematográfica que experimenta conteúdo (com pensamentos narrados) com um toque de modernismo. Há a “menina bonita fã” (quer ser “assistente de um diretor importante”) encontra o famoso-admirado cineasta favorito. Outro detalhe é a conservação, quase nostálgica, do respeito social pela leveza sensível, quase ingênua, da troca de palavras e silêncios, quase tímida. Segue-se uma “rotina para não desmoronar”.

“Certo Agora, Errado Antes” constrói o mise-en-scène de um teatro vivo, em que tudo é elemento influenciador: o clima, as amenidades, o tempo (um dos personagens pensa no hoje sem futuro), o lugar, os turistas, as coincidências, a tolerância e a urgência solidária de “lutar” pelo querer-desejo mas sem prender obsessivamente, sabendo a hora de deixar ir. “Por seus filmes, a vida não é tão ruim assim”, diz-se. E corta a um novo instante, um novo tempo e uma nova pessoa. Que parece ser a mesma, mas não é. Esta outra “ela” não o conhece (não viu os filmes dele), mas saber da fama faz com que mude seu comportamento.

A câmera flui livre documentando fragmentos privados da totalidade da vida e seus complementos, em planos longos, estáticos e vivos. A sinopse nos conta que por engano, Ham Cheon-soo (Jae-yeong Jeong) chega a cidade coreana de Suwon um dia antes do previsto. Para passar o tempo, ele vai até um antigo palácio, lugar que encontra uma artista chamada Yoon Hee-jeong (Kim Min-Hee). Juntos, eles vão até a loja de Yoon para admirar suas pinturas, comer sushi e se conhecerem. Em seguida, eles vão para um bar encontrar com amigos de Yoon. Ao ser perguntado se é casado, Cheon-soo admite que sim e decepciona a artista. Eles “participam” do estágio do conhecimento, e bêbados, defesas são mitigadas, e assim encontram a inocência perdida.

O filme possibilita com novas tomadas a resolução de pendências “desastrosas”, com quase os mesmos diálogos (e conversas sobre o filme e “alfinetadas” sobre um crítico de cinema: “Descarado, arrogante, um esnobe, igual a um crítico”). Na segunda atmosfera (até a cor muda), nosso protagonista está mais calmo, mais contido. Alguns detalhes a mais na percepção da câmera. “Há conforto no convencional”, diz-se. Então novos aprofundamentos, novas opiniões (mais realistas e tristes) e novas ações geram novas consequências mais verdadeiras e “diretores iguais a críticos”.

“Certo Agora, Errado Antes” experimenta a linguagem e narrativa ao desconstruir a própria estrutura já arquitetada, e assim, cria duas histórias representativas e “salvações” temporais com o intuito de “transformar” atores em marionetes e estimular o “se” do público com uma nova vertente ficcional. Sim, é genial. Recomendado.

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