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Um Estado em estado itinerante engessado na massificação dos preconceitos limitados

Por Fabricio Duque

O curta-metragem mineiro, “Estado Itinerante”, de Ana Carolina Soares, muito poderia ser estendido em um longa-metragem, tudo devido à narrativa que constrói, por suas cirúrgicas sub-camadas desenvolvidas, a problemática social da violência física e moral da mulher. O filme busca o feminismo em sua realização, cujo discurso opressivo não é imposto, e sim observado em sua essência em um retrato cotidiano de um meio vivenciado de cobradores e motoristas de ônibus, por não-atores irretocáveis em suas interpretações, visto a entrega à naturalidade e à espontaneidade das micro-ações cotidianas.

E por transformar em ficção, as próprias vidas diárias, sôfregas, de iminentes perigos, estes tantos das consequências da profissão, quanto da convivência machista, hostil e agressiva em acreditar em suas limitações e fragilidades. Enquanto homens são “protegidos” pelos erros. Mulheres são imediatamente “substituídas” ou de “passar a noite na garagem” (e não serem levadas em casa – uma vida “itinerante”). À moda estrutural do cinema romeno (pela temática em documentar questões pessoais), mesclado com a do cinema filipino (pela câmera trêmula e na mão que acompanha as personagens). Vivi, em um período de experiência como cobradora de ônibus, ela trabalha desejando não voltar para casa. A semana passa rápido, entre as paradas no ponto final e o itinerário os encontros com outras cobradoras fortalecem a mulher trabalhadora e seu desejo de fuga do marido que bate e da empresa (“do capeta”).

Logo é final de semana e o centro de Belo Horizonte já não parece tão longe do bairro Boa Vista. Os dias são sobrevividos entre tipos noturnos com a dança catarse-transe na música “Don’t Cry”, de Guns n’ Roses com um transexual (homem essencialmente feminino) que de certa forma representa a voz masculina, não sendo um deles, e sim reiterando a liberdade do ser e do agir. Concluindo, um pequeno grande filme de um Estado em estado itinerante. Recomendado. Integra também a sessão Curtas da vigésima edição da Mostra de Cinema de Tiradentes 2017.

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