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Uma Teatral Construção Brecht Que Ultrapassa o Contemporâneo

Por Fabricio Duque

“Elon Não acredita na Morte”, que integra a mostra competitiva da VIII Semana dos Realizadores 2016, representa acima de tudo um mergulho pós-modernista na estética do teatro contemporâneo de Bertolt Brecht, por tecer uma sensação de estranhamento existencial, experimentando uma encenação da própria vida e reverberando projeções e consequências de uma mente humana fragilizada por acontecimentos traumáticos que beiram a insanidade, esta “loucura protegida” que se comporta pelo viés protetor da fuga contra a aceitação terminal da verdade crua, nua e absoluta.

Aqui, ainda se corrobora a estrutura autoral de seu diretor, Ricardo Alves Jr., que estreia na direção de um longa-metragem, e que traz o gênero de filme de ator (protagonizado pelo onipresente Rômulo Braga, que está na maioria das obras cinematográficas atuais e que venceu a categoria de Melhor Ator no Festival de Brasília 2016) que “recebe” o ônus em conduzir o roteiro expressado pela atmosfera psicológica em permitir que o espectador seja aprisionado numa alucinação à moda de uma falsa catarse libertária e terapêutica.

A sinopse nos conta que após o desaparecimento de sua esposa, Madalena (a atriz Clara Choveaux – que se entrega em uma icônica e perturbadora – no melhor sentido da palavra – cena de sexo), Elon imerge em uma jornada insone pelos cantos mais sombrios da cidade, buscando entender o que pode ter acontecido com ela, na tentativa de descobrir respostas e não perder sua sanidade pelo caminho.

Porém, já é esperado e inevitável que quando alimentamos nossas perturbações, nossas inquietações, nossos quereres e nossas buscas de forma árdua, intermitente, incondicional, visceral e excessivamente emocional, nós, então, estamos fadados a deturpar o óbvio. Detalhes são transmutados em crenças subjetivas não questionáveis. Trocando em miúdos, nosso protagonista acredita piamente na possibilidade da vida, rejeitando terminantemente a morte como uma opção válida e real.

Elon transcende a filosofia psicanalista do francês Jacques Lacan, e subverte a figura feminina de sua amada esposa em outras mulheres. Sua mente o engana ao personificar possíveis gêmeas e possíveis mortas. Não se sabe. Todo este estranhamento que beira uma confusão perceptiva, inserido propositalmente à trama, permite que camadas metafísicas sejam ilimitadas ao entendimento tanto de quem assiste, quanto da loucura co-dependente, retro-alimentada por nosso protagonista, principalmente pela presença da câmera que o acompanha na maioria do tempo pelas suas costas, sugerindo sutilmente sua culpa e plantando a semente da dúvida nas ideias do público quanto às causas factuais. Será este artifício uma forma de suavizar o sofrimento ao espectador, que é manipulado a apenas observar e não interagir? Até porque tudo é vislumbrado e esclarecido em seu final, especificamente em sua última cena, por trazer o concretismo palpável de nos poupar e nos libertar das alucinações de Elon.

“Elon Não acredita na Morte” também importa referências de inúmeros curtas-metragens de seu diretor. Cada cena pode e deve ser analisado como uma homenagem de condensar estéticas já experimentadas. E integra, em planos longos, sôfregos, cerebrais e desalinhados, a cidade solitária, soturna, noturna, cansada de submundo enraizado, com a urgência pressa de expurgação dos demônios internos que impossibilitam o descanso e a paz.

Concluindo, não é um filme de fácil absorção. Ainda bem. A primazia reside exatamente nisso. Nós somos inseridos nesta avalanche psicológica de sub-camadas mal-entendidas e estranhos encontros existenciais de uma vida real que se perpetuou em uma premiada ficção. Integra também a sessão Horizontes da vigésima edição da Mostra de Cinema de Tiradentes 2017.


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Entrevista Exclusiva com o Diretor Ricardo Alves Jr.


Incrível o filme. E já chega premiado. O que o público do Rio pode esperar do filme?

Acredito que o publico pode esperar um filme de atmosfera. Elon é como o destino de um Orfeu perdido, atormentado, sem saber o que está de fato acontecendo – ou sem poder acreditar no que está acontecendo. De alguma maneira, o personagem do Elon se encontra com o mito do Orfeu que desce ao inferno na busca pelo amor.

Você tem um lado autoral bem marcante. De conceito existencialista. Como foi o processo de criação?

Foram três anos de trabalho, da ideia a realização do filme. Portanto durante esse tempo o roteiro foi para muitos lugares. Quando chegamos ao caminho que seguimos efetivamente, sabíamos que o filme seria o acompanhamento do surto do Elon. Isso está também na mise-en-scène: eu trabalho muito os espaços e o filme é todo construído em cima de lugares que oprimem. Nesse ponto, a direção de arte e o trabalho de som, que vai “distorcendo” a realidade, também foram essenciais.

Qual a importância da Semana dos Realizadores?

É um festival acho muito interessante, por apresenta filmes com olhares inventivos e propostas autorais.

É um filme de atores, especificamente de ator. Como foi esse processo? Teve preparador?

Trabalhei com o Rômulo Braga]no teatro – fizemos a adaptação do filme Saraband, do Bergman – e ele foi a primeira pessoa a ler o roteiro. Mas eu fiz o convite e desconvidei porque pensei que o próprio Elon poderia fazer o papel. Mas, durante o processo de construção do filme, o Rômulo ia voltando à minha cabeça. Além disso, fui vendo que o filme estava ganhando muito mais ares de ficção do que a própria história do Elon. O que fizemos foi fabular sobre a fabulação. O próprio nome que Elon deu para si não existe. E o Rômulo é um ator inventivo, que não teve medo de se jogar no abismo da loucura. Outra coisa é que o preparador Germano Melo foi buscando algo que era fundamental para a interpretação dos atores: um tom mais “seco” nos diálogos e nas atuações, chegando num minimalismo nas ações.

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