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Mais um Autêntico Bressane

Por Francisco Carbone

E finalmente se encontram no novo filme de Júlio Bressane dois de seus colaboradores mais contumazes ultimamente. De ‘O Mandarim’ e ‘Filme de Amor’ vem Fernando Eiras, de ‘Cleópatra’ e ‘A Erva do Rato’ vem Alessandra Negrini. Ele é um dos mais respeitados atores do teatro da sua geração, ela é uma estrela da tv que vive alçando novos voos. Juntos em Bressane eles sempre foram além de suas carreiras, para o bem e para o bem. Enquanto Eiras vem de habitual experimentação e reconhecimento teatral, Negrini encontra num dos mestres da geração Belair a válvula de escape para fugir dos rótulos que a perseguem na carreira. Então se o universo de Bressane é confortável para os dois, se vê em cada um encaixes distintos: Eiras agrega e se amalgama a Bressane, Negrini se transmuta e cresce. Ambos saem sempre fortalecidos.

Dessa vez Bressane os vê como um casal desconstruído, que desconstrói a própria desconstrução e permite ao jogo que todo relacionamento propõe novos lances e propostas que tiram seus rumos e suas amarras, se vendo constantemente em necessidade de uma rede de proteção, ao qual o outro faz questão de destruir com novo desafio, e assim continuamente. Aos poucos a proposta narrativa de Bressane se percebe dentro de uma crescente certeza de “normalidade”, como se a cada nova cena uma nova camada de verdade e realidade fosse atribuída ao jogo, e ao olhar do espectador. E quando cito espectador, é com mira específica no já escaldado que persegue e lê bem Bressane; aos menos enturmados, bastarão o fascínio da representação das metáforas intrínsecas a qualquer relação?

Digo que sim, arriscando encontrar detratores pelo caminho. Mas a vida é pelo risco, ensina Bressane a cada novo lançamento. E enquanto filma seus protagonistas declamarem verdades nada absolutas sobre a intrincada ciranda amorosa que todos nós estamos reféns de vez por outra passar, nosso bardo maldito arrisca também mais uma vez descortinar suas lentes frente a um novo público disposto a refrescar o olhar da mesmice narrativa do qual todo o cinema está inserido rumo ao desconhecido de sua proposta, que nada mais é do que refrescar os clichês com lufadas generosas de ousadia e experimentação. Mas a mensagem está lá e é clara: ame e deixe amar.

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