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As Paixões do Bendito Fruto

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2016


A responsabilidade de Camila Pitanga era tamanha quando resolveu realizar um documentário sobre seu pai “que bagunçou muito sua cabeça” (“boa, linda, saudável, afetiva”), Antônio Pitanga, um ator, que aumentou a relevância de forma irretocável a figura do negro no cinema, entregando-se sem reservas, limites e medos à arte de interpretar. A atriz-filha, agora diretora, tinha que mensurar, em “Pitanga”, o sentimentalismo emocional intrínseco, e as diversas homenagens-almoços de outros mitos da História do Brasil, como Caetano Veloso, Maria Creuza, Othon Bastos (“Fazer cinema é saber de tudo e se envolver”), Ítala Nandi, Tamara Taxman, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Ruth de Souza, Joel Zito Araújo (“Que negritude nossa é essa”)Ziraldo, Tonico Pereira, Angela Leal, Zezé Motta, Silvio Guindane (“como uma escola de samba”), Elisa Lucinda, Neville D’Almeida, Hugo Carvana, Vera Manhães, Andre Tonacci, Luiz Carlos Barreto, Gilberto Gil, Milton Gonçalves, Walter Lima Jr., Antonio Molina, Zé Celso, Lázaro Ramos, Léa Garcia (“Não sou escrava de branco, nem de preto”), Cacá Diegues (“Contratei um ator, ganhei um amigo”), Maria Bethânia (“Você era lindo demais. Era infernal”).

Mas inevitavelmente, já era de se esperar, que o tom encontrasse muito mais a pessoalidade. “Pitanga”, que tem co-direção de Beto Brant (que já dirigiu Camila em “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios”), busca traduzir, dissecar e desmistificar esse ser um “cavalo” “Orixá”, que já foi “Jesus Cristo”, “Alá”, “Ogum”, “David”, “Corisco, o Diabo Loiro” (“que clama por todos eles em um corpo só”), que atravessou com representatividade os filmes de Glauber Rocha (“Eu acabei de cometer um maior crime: passei na frente da câmera. Mas como é Cinema novo…”). “Libido é cor de rosa”.

“Pitanga” (“a manga dos deuses”), que vem do termo tupi antigo ybápytanga, significa “fruto avermelhado”. O documentário busca, em sua narrativa, uma estética de cunho caseiro, com propósito mais amador, com o intuito de estreitar a distância com o espectador, e assim criar naturalmente intimidade com o homenageado real, intercalando cenas de seus filmes e referências à rústica árvore pitangueira, fruto de bolinha carnosa vermelha e de sabor marcante, cultivada tradicionalmente em quintais domésticos. O fruto quando maduro, fica tenro e se danifica facilmente com o transporte, apresentando grande fragilidade. “Cada um faz sua independência”.

Sim, é exatamente por isso, que Antônio Pitanga “navega na costa do mar” – um “namorador voraz” mangueirense – e conserva aos 77 anos o frescor da juventude, o ativismo político não radicalista, a “licença para pisar no solo capoeirista”, sendo muitos em um só. E de frágil, apenas características de suas personagens. Antônio “ensinava” seus filhos “mostrando exemplos” e nunca limitando. “Quando anda com as próprias pernas, ganha o mundo”, diz-se.

Entre o candomblé, o casamento com uma “evangélica”, a ex-governadora do Rio de Janeiro, Benedita da Silva, ritos de nascimento, convencimento à moda de Martin Luther King, Panteras Negras, poesias, lembranças, memórias revisitadas pelos lugares dos filmes, tudo é conduzido pela extrema liberdade. “Para ter felicidade, tem que ter harmonia”, diz-se. Antônio Pitanga foi o ator principal de “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1962. Ele (“careta é sério, mas em transe, vê tudo”) procurava que com a “discussão nascesse a luz e não um inimigo”.

“Pitanga”, que no dicionário Aurélio escreve “fruta de chupar”, ambienta-se por entre cortados bate-papos entre amigos (com suas cúmplices piadas, picardias e pilhérias), relembrando, sem dramas e sensibilidades, as dificuldades do passado, como o hospital “que não atendia negros”. “Malandro é o governo que leva o filé mignon da gente sem fazer força”, diz. É um filme sobre a alma e sobre os amores e as “mulheres de Pitanga” (“Ele pegou todas”). “Fique péssima. Que paixão errada. Era só depressão”, confessa-se espirituosamente, incluindo sarcasmos sobre a “morte”.

“Todo homem deve contar a história. De praia à noite, tudo que uma mulher quer é estar com Antônio Pitanga. Que Sex appeal!”, derrete-se. Há quem diga que é um filme machista, por causa da época antiga que estimulava a “arte da conquista do homem”. Pois é, vamos maneirar. Menos. Aqui, o discurso é exposto livremente, sem tabus, sem pudores e altamente perspicaz. “O cérebro é uma ilha de edição”, disse Wally Salomão.

“Pitanga”, que reitera que “a razão não foi perdida”, traduz-se como um retrato, de passional felicidade desmedida, deste “negro em movimento”. É um documento, um álbum de família sobre a vida, obra, amores e amigos (todos que passaram) de Antônio Pitanga, “um negro em sabiência”. É uma “história para ser contada”. Um “paradigma de saúde” (sua vivacidade com o filho Rocco Pitanga). Um “combatente que dança na paz, sabe o momento de recuar e de dizer as coisas”. Um “vovô que fala muito”, que nunca batia nos filhos, “mas dava sermões de duas horas. “Obrigada pela vida”, finaliza Camila Pitanga. Um documentário necessário, e que perpetua um dos grandes atores de nossa cinematografia brasileira. Antonio Pitanga e Camila Pitanga já contracenaram juntos no filme “Mulheres do Brasil”, de Malu de Martino.


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