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Quando o pavio aceso é a explosão da mensagem

Por Francisco Carbone

Durante a Mostra de São Paulo 2016

É difícil perceber de cara as intenções de Nate Parker no seu longa de estreia. Baseado na história real de Nat Turner, um escravo peculiar de uma fazenda de algodão do sul dos EUA escravocrata, Parker não se revela de cara e talvez até demore mais do que o necessário para fazê-lo. Disposto a acompanhar a trajetória de seu personagem, Parker utiliza uma incômoda batida ideia, mostrando o biografado desde a tenríssima infância desnecessariamente, dando um ar de retrato ultrapassado a seus minutos iniciais. Na ânsia de colocar tantas questões a disposição do personagem desde criança e talvez na pressão de estrear com uma história tão importante e explosiva, o jovem diretor nos confunde com suas decisões, parecendo assim a estar disposto de contar sua história da maneira mais convencional possível, porém Parker quer mais.

Isso não quer dizer que o multi-artista (além de diretor, o rapaz também protagoniza, roteiriza e produz seu material) abra mão do convencionalismo, mas sim que o use em benefício próprio, como uma armadilha sendo gradativamente armada para o espectador. Vários aspectos da sociedade atual são não somente abordados, como escancarados de maneira implacável, e talvez o propósito de Parker com isso seja provocar um debate pra lá de
explosivo. Seus intentos são alcançados pouco a pouco, cena a cena, e quando menos esperamos a imersão é completa. E sim, ele a orquestra da forma mais esperada possível; nos damos conta disso no final.

A história de Nat Turner é uma história de abnegação e resiliência em princípio, para explodir em som e fúria extrema após anos da exploração dedicada comumente aos de sua raça durante a escravidão. Repete-se a trama do negro inteligente e subserviente que se relaciona com patrões brandos, até tudo deixar de ser. O roteiro de ‘Nação’ se dedica a clichés e não os
esconde, uns funcionam e outros emperram. Mas é o megafone ligado bem alto de Parker que reverbera as questões hiper pertinentes que vemos retratadas no século XIX do longa, complexas e atuais: a religião como mote de dominação, a objetificação da mulher, os papéis de domínio social, a estrutura da escada do poder na sociedade, e tantos outros. O filme de Nate Parker com poucas alterações poderia ser ambientado hoje.

Tecnicamente eficiente e com um elenco que funciona muito bem em conjunto, ‘Nação’ não faz jus a histeria coletiva que se viu em janeiro quando do seu lançamento em Sundance, mas é um raro caso onde seu grito de urgência é tão ou mais importante quanto sua diagese visual e textual, e Nate Parker teve o pulo do gato de soltar essa bomba em formato de celuloide no momento exato onde todos os seus temas estão em voga para o debate. A força das situações criadas por ele, e algumas imagens pontualmente impressionantes fazem o que seu roteiro nem sempre consegue fazer, acabando por promover uma catarse de retidão e justiça numa sala de cinema lotada.

 

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