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A Maestria Livre da Espontaneidade Improvisada e do Convencimento Cúmplice

Por Fabricio Duque

Toda a maestria de “La Vingança” está em seu roteiro a cinco mãos, de Thiago Dottori, Pedro Aguilera, Jiddu Pinheiro, Fernando Fraiha e Felipe Sant’Angelo, (de primazia espirituosa por mesclar humor negro, sarcástico, ingênuo, paspalhão, preconceituoso, constrangedor, defensivo e politicamente incorreto), que se desenvolve por ritmados gêneros em variadas experiências referenciais cinematográficas, equilibrando a narrativa pelo foco principal da comédia de situações-peripécias, obrigando o embarque de suas personagens em um acaso “choque” terapêutico-comportamental (de confronto com o “perigo” criado), para que assim, todos possam resolver e consertar suas pendências sentimentais-existenciais. Esta jornada road-movie representa a mudança deles. Transmutar estágios confortáveis e cômodos. E se aventurar nas consequências da própria vida. Após receber a enigmática mensagem “precisamos conversar” de sua noiva (a atriz Leandra Leal), Caco, um dublê de cinema fracassado, resolve fazer uma surpresa para sua namorada e pedi-la em casamento, mas acaba a encontrando com um argentino. Vadão, o melhor amigo de Caco (o “boludo” que “pensa muito” antes de agir), arrasta o ex-futuro noivo até a Argentina numa viagem “nonsense”, a bordo de um Opala laranja 72, em busca por vingança (de iniciante desconhecimento e incompatível com a “fofura” interna, que se travesti em perspicácia irônica nível “hardcore”. Enquanto o amigo tenta reviver a adolescência, Caco segue focado em reconquistar seu amor. Mas nada acontece como planejado. Assim, o espectador paga por um filme e ganha outros dois, porque “La Vingança” constitui o melhor do cinema brasileiro, argentino e o americano de Quentin Tarantino (quanto a um faroeste contemporâneo de honraria ao orgulho ferido de um “new macho” – que na essência é sensível, quase feminista), focando, principalmente, no conceito textual dos diálogos precisos, surreais, de espontaneidade improvisada, livres, de convencimento cúmplice, de inocente picardia à moda de adultos que se comportam como adolescentes medrosos, tímidos e “mascarados” de coragem. Como já foi dito, a condução rítmica da trama aprisiona o público na cadeira de cinema, e faz com que se esqueça, literalmente, de comer a pipoca comprada, visto o grau de tensão da irretocável montagem. O longa-metragem, dirigido pelo estreante Fernando Fraiha e co-dirigido pelo ator Jiddu Pinheiro (que teve a ideia original), perpassa por julgamentos predeterminados e massificado do imaginário popular, como a rixa Brasil versus Argentina, que também pode ser percebido em “O Roubo da Taça”, de Caíto Ortiz. Contudo, no filme em questão aqui (rodado inteiramente na Argentina – na capital Buenos Aires e na pequena cidade de Capilla del Señor), busca-se potencializar a humanização das diferenças sociais, idiossincráticas, geográficas e antropológicas dos dois países, e com a “obrigada” convivência, mitos implicantes-orgulhosos são desvanecidos e novas percepções renascem pela amizade, amor, afinidade e tolerância. Seria um exemplar de auto-ajuda se não fosse a ironia verbalizada que quebra a estrutura iminente da sensibilidade, principalmente pela desenvoltura ultra-perspicaz dos atores Felipe Rocha (que treinou muito sendo Reginaldo em “Lili, a Ex”) e Daniel Furlan (de “Furo MTV”), que imprimem tamanha naturalidade que abduzem seus coadjuvantes em uma cotidiana aura orgânica. O destino dessa aventura poderá ser a maior de todas as revanches – ou, como se diz em bom portunhol, “La vingança”, que abraça a estética de outros filmes: “Superbad: É hoje”, “Se beber… não case”, “Pequena Miss Sunshine” e “Y tu mamá también”. “É uma comédia que mostra um ponto de vista crítico sobre o lugar da masculinidade nos dias de hoje, e o machismo como algo que não se encaixa mais”, explica e finaliza seu diretor, Fernando Fraiha. Concluindo, altamente recomendado. Até porque inclui a trilha-sonora de Plínio Profeta (o mesmo que fez “O Palhaço”, de Selton Melo).

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