Por Marise Carpenter Elias

Podemos dizer que o filme “La Vache – A Vaca”, seu título original, é divertido. Pela expressão no rosto das pessoas da plateia e pelas boas risadas que deram, podemos dizer que é muito divertido.A história da jornada do pequeno agricultor Fatah e sua vaca Jacqueline faz com que o filme tenha um ritmo dinâmico e repleto de acontecimentos inusitados o que o torna atraente e animado. A isso, soma-se o carisma que o ator Fatsah Bouyahmed empresta a Fatah.

Com plano aberto mostrando uma paisagem árida, terrenta, ouve-se ao longe Fatah cantar. Quando a câmera se aproxima vê-se que Fatah está a cavar, plantar e colher suas verduras. Tudo sob os olhos de Jacqueline, sua vaca de estimação. Nessa primeira parte o filme é ambientado em um vilarejo na Argélia. Fatah é muçulmano, vive com sua família, esposa, duas filhas e Jacqueline, sim, porque para ele, Jacqueline faz parte de sua família. Sim, Jacqueline dorme com o cobertor vermelho usado na noite de núpcias com sua esposa. Sim, Fatah encontra carinho e compreensão em suas conversas com Jacqueline. E é assim que ficamos sabendo de seu maior sonho: participar de uma grande feira de agricultura, realizada em Paris e que, finalmente, nesse ano resolvem aceitá-lo por conta de sua insistência e perseverança.

Aí a câmera mexe, a câmera corre, os planos se aproximam, os cortes são muitos, as cenas são várias, as elipses surgem. Fatah se mexe, Fatah corre atrás de patrocínio com seus patrícios que se unem em uma reunião formal para ajudá-lo em sua empreitada em nome do bem, da amizade e da fraternidade. Árabe.

Jacqueline e Fatah partem para a incrível jornada. Incrível, porque nesse percurso acontecimentos inimagináveis ocorrerão para Fatah e, quiçá, também para Jacqueline! Jornada, porque eles vão a pé e a pata até Paris!

Dessa forma, outros personagens entram no filme. Os Franceses.

A começar pelos policiais que os recebem assim que pisam em Marseille: começam durões olhando de esguelha para Jacqueline e Fatah e terminam tirando fotografia com eles e recebendo elogios, agradecimentos e saudações de Fatah que não acabam mais.

Mais à frente, encontra e faz amizade com um grupo de pessoas em um local onde está tendo uma festa com mágico, danças, música e Fatah bebe cachaça de pêra e canta “I will survive” em versão francesa e beija a moça francesa “gorda” e cai de bêbado. Como leva consigo uma câmera e cartões de telefone dado por seu amigo argelino que quer fotos de sua aventura, logo essas fotos vão parar no vilarejo, no único local que tem um notebook. Todo o vilarejo se reúne em torno para ver as fotos e vai que surge?: a foto de Fatah na festa, bebendo na boca da garrafa, aos beijos na boca da moça francesa. Há rebuliço geral. Há revolta da esposa que quer o divórcio. Fatah quando sabe se desespera.

Seguem viagem e pela frente Jacqueline atola no lago de propriedade de um Conde. A princípio o Conde se aborrece, mas logo ajuda desatolar Jacqueline. Dormem no casarão, ficam amigos, Fatah é adorado pelos empregados. Fatah anima, distrai, ajuda. Ajuda o Conde que é depressivo por estar endividado, hoje é um “Conde sem condição”, e por ter se separado de sua esposa: “não nos entendemos mais”, ao que Fatah responde que ele e sua esposa gritam, brigam e continuam juntos. Família… tradição. Árabe.

Se despedem.

Agora, se deparam com uma manifestação de sem terras e Fatah vai parar nas televisões do mundo todo dando uma entrevista contando que está indo com sua vaca Jacqueline para a feira agropecuária e aproveita para mandar o recado de arrependimento pelas fotos, que não teve culpa, que a culpa foi da pêra. Os franceses adoram sua história, fazem um facebook e Fatah entra na rede. Sua frase “A Culpa foi da Pêra” viraliza na internet.
Fatah também vai parar na prisão e quem o salva é seu amigo Conde. Ao que Fatah agradece e diz que ele ganhou com isso um Hassanat, que significa um ponto que Deus dá às boas ações. Ao que o Conde responde dizendo que ele, Fatah, deve ter muitos Hassanat. Sim!

E Deus deve ter dado muitos Hassanat para Fatah e, quiça, para Jacqueline, pois quando finalmente chegam na feira em Paris, são aclamados por franceses emocionados e com cartazes “A Culpa é da Pêra”. Jacqueline ganha o prêmio do público. O prêmio do povo. Francês.

Podemos dizer que o filme “La Vache” não é somente divertido. Para aqueles rostos sorridentes da plateia que quisessem ou pudessem pensar, veriam nas entrelinhas da comédia uma França que um dia colonizou uma Argélia, que assolou seus habitantes e que não perde oportunidade para dizer que hoje são outros. Vamos esquecer, vamos rir. A Culpa é da Pêra. Mas, a pêra, foi colocada na boca do argelino!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados