Sim. A máxima popular de que não é necessário um alto orçamento para se realizar grandes filmes com criatividade-qualidade pode e deve ser aplicado no novo longa-metragem “A Montanha”, do cineasta Levan Bakhia (de “119 Graus”, “She, Who Killed Us All” – que possui a característica típica de utilizar o mistério cerebral iminente), da Geórgia (país que se situa na Europa Oriental, e suas divisas com a Rússia, a Turquia, a Arménia, o Azerbaijão, e com o mar Negro).
Sim, é uma obra essencialmente independente-alternativa, que “abraça” o gênero de Thriller psicológico, enraizando o direcionamento de sua atmosfera ao horror comportamental e ao amadorismo proposital (este com um quê de documentário espontâneo), cujo “monstro” é o lado “negro da força” de cada um, que pode ser acordado com veemência e ira catática (e de sinestesia violenta de “explodir” a apoteose hereditária dos brutos antecessores homo-sapiens) por causa do ciúme, honra, orgulho, machismo, vingança, sadismo e ou até mesmo pela “culpa” da “bebida”.
Aqui, sua estrutura encontra a Teoria do Caos, visto que cada escolha-ação gera uma consequência que poderia ter sido evitada, como uma reação em cadeia de “cavar” a própria “cova”. “A Montanha” é sobre a vilania que o ser humano possui no lugar mais profundo de seu âmago. Essa psicopatia despertada reverbera constantes ataques não pensados e analisados, e sua entrega às “tentações” produz a “viagem” ao submundo individual-único-particular mais doentio-libertário-instintivo do indivíduo social, que luta “fielmente” (na maioria dos casos) para esconder seus perversos desejos pelo medo da letra literal da Lei.
A história basicamente é contada pela visão perceptiva de turistas americanos em uma viagem pela Geórgia Europeia, e quando um deles, o personagem Chris (o ator Sterling Knight) pisa em uma mina terrestre (referência explicada logo nas primeiras cenas-conversas – que inclui a tão clichê xenofobia com os Russos). Dois deles, Alicia (Spencer Locke) e Daniel (Dean Geyer) têm planos de casamento, mas devido um deslize irretratável de um deles, o enredo “mergulha” livremente nos acasos que estarão por vir.
Seu roteiro consegue a maestria por focar na despretensão, de auto-condução às entranhas viscerais, “rasgando” a alma humana superficial a fim de expelir “demônios” egoístas em luxúrias idiossincráticas pela necropsia; e tudo potencializado (suas interpretações irretocáveis) por uma fotografia crua-apática de visual realista e por uma câmera ora “sobrevoa” com seus Travellings e tomadas aéreas, ora acompanha personagens, com o intuito de expandir o todo de praticamente dois únicos cenários (a passividade da submissão e a “lavação da roupa suja” ativa à moda “Dogville”, do diretor dinamarquês Lars von Trier), e, assim, aprisiona o espectador em seus perigos à “perder de vista”, referenciando, mesmo sem querer “A Bruxa”, de Robert Eggers, por buscar a metáfora da brutalidade eletrizante contemporânea (de não mais existir o limite como atenuante) no vilão sociopata Ilya (o ator extraordinário Kote Tolordava – que faleceu aos 35 anos, antes do lançamento do filme – e que merecia mais atenção e prêmios), que explicitamente nos leva a “Violência Gratuita”, de Michael Haneke e “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick.
A montanha é a representação do tédio; os turistas passantes acidentais à moda de “Ma Loute”, de Bruno Dumont, que esteve na competição oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2016; e seu contexto-conceito a ideia da antropologia local dos tipos “animalescos” e perigos, que mostra que o cachorro talvez seja o mais sensato e o mais puro de espírito (por perpetuar o “ofício” existencialista que foi destinado. Sim.
Concluindo, “A Montanha” (de “Landmine Goes Click”) é uma parábola. Uma fábula realista que surpreende com a mensagem final, que vai da raiva à defesa de se auto-revidar, passando pelo arrependimento quando consequências não podem retornar à fase-estágio de antes. É um filme sobre o antes que se torna o depois. Será exibido na edição 2016 do Sessão do Cramulhão, na terça-feira, dia 09/08/2016, no Cine Joia de Copacabana, Rio de Janeiro.
Cineclube este que é dedicado a filmes de terror, e que o espectador-cinéfilo-leitor ganha uma taça de vinho (o sangue do cinema personificado) para expandir e animar a diversão garantida. Imperdível. Recomendado.

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