Por Fabricio Duque

“Casa 9” representa a experiência caseira, intimista, doméstico, passional, saudosista e livremente apaixonada do cineasta “animador geral” Luiz Carlos Lacerda (do ficcional “Leila Diniz”, “Introdução à Música do Sangue“), o Bigode, sobre o endereço em Botafogo de efervescência artística que pessoalmente viveu e que possibilitou a ele uma convivência “coletiva” da criatividade sem freios, preconceitos, ressalvas, tabus, limites,. Se naquele tempo, as drogas e o comportamento social servia para expandir a consciência do conhecimento, hoje esta característica é contrastada apenas como uma fuga alienante e covarde submissa de não se lutar politicamente. O passado era provocador, questionador, ativo e enérgico perante a ideologia. Aqui, este documentário de narrativa irregular e montagem amadora, é muito mais um exemplo nostálgico de se explicitar o conceito temático que propriamente embalar com a estética ilusória do visual. “Casa 9” busca a fluidez “camarada” de ser, soando mais como um filme família de amigos que relembram “causos” curiosidades histórias que influenciaram nos ditames póstumos de lá à atualidade daqui (como o “almoço do jogador botafoguense de futebol, Garrincha”); picardias cúmplices, porém respeitosas sobre (e entre) os moradores da vila e especialmente da Casa 9 (“um lugar dos pobres”, “imigrantes da Paraíba e Pernambuco”, e “que era de liberdade de expressão completa e absoluta”), divagando livremente (entre o som ambiente cotidiano-familiar introdutório de um vendedor de vassouras em mais um dia-a-dia comum) elucubrações, detalhes subjetivos, lembranças contadas (como o “cotovelo de Paulinho da Viola”) e particularidades únicas à moda José Saramago, até mesmo tentando traduções adjetivas e definidoras, como um estudo-essência da casa “que é o refúgio sagrado do homem”. “A casa se torna mais importante que seus habitantes”, diz-se. “Casa 9” é também um filme que radiografa a história da música “free”, por “jam sessions” de Jards Macalé (que aqui volta como “protagonista”, lembrando que faz documentado em “Jards”, de Eryk Rocha) e seu “Vapor Barato”, por imagens de arquivos de Gal Costa e sua voz em “London, London” (de Caetano Veloso), por arranjos Jimi Hendrix, por gosto controverso de um militar por Tim Maia e por B.B. King; e que em sua narrativa ainda conta com apresentações do próprio Bigode, sem esquecer de seu Papagaio. Esses seres, personagens (que geravam uma “aguçada curiosidade por serem artistas”) estilo “pop com pobreza”, sem dinheiro com “mochilas subversivas”, em um “delírio ambulatório” de um processo intenso criativo de “liberdade Posto 9” (“uma bandeira transparente”), que incluíam Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Sônia Braga (e seu “ensaio para Gabriela”), Waly Salomão, Cacá Diegues, Fábio Barreto, Clarice Lispector e seu “O Ovo”, Gustavo Dahl, Lenine e seu “selo Casa 9”, retro-alimentavam uma “afinidade da loucura” que se uniam em um “exercício do coletivo” para gerar clássicos fílmicos como “Amuleto de Ogum”, “Tenda dos Milagres”, “Princípio do Prazer”, “Heaven”. Eles foram “Odaras” “testemunhas de uma festa que nunca terminava”. “Era um caos”, assume-se, contudo é na desconstrução da normalidade e na entrega totalitária-catártica que as obras são mantidas, perpetuadas e paradoxalmente respeitadas nesta hippie “época de Hair” que “trouxe vivência” consistente a estes “revolucionários” que precisaram “dançar conforme a música” para sobreviver à “barra pesada” dos policiais que agiam com “crueldade”, “violência” e falta de tato. Então, “Casa 9” é a possibilidade ao público, o de agora em conhecer e o de antes, relembrar o “amor”, por meio desta experiência incondicional subjetiva-pessoal-intimista que mais se preocupa com o que quer dizer que florear seu visual. Um documentário interessante, de doméstica realização, que revisita “pratos”, “Cabidinho” e toda uma atmosfera formadora de vida pura, visceral, “easygoing”, altamente afiada, espirituosa e perspicaz, ao tempo presente.

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