Por Fabricio Duque

“Paraíso Aqui Vou Eu” é o “mergulho” dos diretores Cavi Borges e Walter Daguerre na atmosfera conciliatória, livre, leve, carioca, solta, “legalize” e esperançosa de “Como Ser Solteiro no Rio de Janeiro”, de Rosane Svartman com “Pequeno Dicionário Amoroso”, de Sandra Werneck. O longa-metragem de 2011 pulula referências pop que vão de “Pulp Fiction” à filosofia “Guerreiro Jedi”, esta que consiste na metáfora da “borboleta sonhada” e em “adaptação” a técnica “banzai” prática da “pegação” (“Sair para noite, e levar dez nãos de dez mulheres diferentes” – quase um universo “Hitch – Conselheiro Amoroso”, de Andy Tennant). Aqui, a narrativa é desenvolvida pelos diálogos verborrágicos de picardia-embate que se prendem na perspicácia e espontaneidade do amadorismo coloquial de ser, focando na encenação, porém expandindo a liberdade do realismo defensivo, ora por culpa, covardia, timidez ou por uma inocente auto-proteção. Tudo é sobre o amor, o encontro utópico da paixão, a “luta” contra a solidão, o “lado negro da força”, este que também se aplica e critica uma vida política “anta” em Brasília. Entre câmera subjetiva, cinema judaico de Woody Allen, música de Tiê, Letuce e Plínio Profeta, existencialismo sobre a nostalgia-saudosismo do paraíso, referência inicialmente implícita a “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman (pelo “jogo de xadrez” – e depois explícita), “Paraíso Aqui Vou Eu” comporta-se como uma experiência espirituosa, que aprofunda a mudança pelo acorde do violão e pela projeção de um amigo imaginário Chicão (o ator Álamo Facó – quase como o núcleo “Bob Marley” “tartaruga” de “Procurando Nemo” – “Não há nada que um bom dia no surfe não cure”), “easy going” (o antagonista que confronta o lado “mar de contas”, sisudo e ranzinza do protagonista, o poeta esquecido, Francisco (o ator Guilherme Piva), que junto da ex-mulher, professora desiludida, Sara (a atriz Solange Badin), decide se reencontrar para conversar sobre as angústias e “lavar a roupa suja” do passado, como uma terapia de choque cognitiva e imediatista de psicose retro-alimentada. O ex-casal encontra ao acaso, na melhor definição “Matrix” de Lei de Murphy “Kafka” de ser, com a jovem Penélope (a atriz Natália Garcez), que muda a vida deles com seu jeito livre de ser. O roteiro caminha na linha tênue do confronto entre praticidade versus passionalidade). “A força é um rio que muitos podem beber. No Rio. De Janeiro”, diz a “consciência adolescente” com uma sacada inteligente, divertida e de cumplicidade sinestésico com o público, que em hipótese alguma deseja que nos tornemos um “idiota para mudar tudo” e que não “gagueja”. Podemos resumir com uma frase do próprio filme (“É sobre um cara que quer ir para algum lugar conseguir alguma coisa”). Aos poucos, uma onda aceitável e necessária de auto-ajuda instaura-se, que é a de que na vida não precisamos de muito e sim de uma mochila, e lógico de uma prancha de surfe. “Paraíso Aqui Vou Eu” tem “humor no sangue”, de usar a análise para desconstruir a própria necessidade. Assim, seus personagens “negociam com as consciências”, negociam idas à praia (para deixar do visual “vampiro”) e buscam a máxima de “fazer antes e pensar depois”. Eles, quarentões, querem recuperar a juventude, mitigar as manias criadas com o tempo, vencer o “excesso de responsabilidade e culpa” e seguir o “mantra” de “que quando se tem certeza de alguma coisa, não se vê mais nada na frente”. O filme é apaixonado, harmonioso, livre e recomendadíssimo. Que revisita a época naturalista comportamental dos anos oitenta sem tantos politicamente corretos, preconceitos e estresses potencializados. “Paraíso Aqui Vou Eu” passa no dia 22 de julho no Cine Joia na Semana Cavideo. Imperdível. Porque o paraíso perfeito cabe a cada um escolher, viver, se perder e se libertar.

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