Por Fabricio Duque

É inquestionavelmente aceitável que alguns diretores de cinema retro-alimentem influências do próprio meio em que vivem. Um deles é o pernambucano Taciano Valério, de Caruaru, a mesma terra natal de Cláudio Assis (de “Amarelo Manga”). Em “Ferrolho”, querendo ou não, o primeiro assemelha-se ao segundo, e os dois unem ideias, ideologias, revoltas e utopias por um discurso inflamado e catártico (que o espectador pode perceber em “Febre do Rato”) em uma narrativa que expande núcleos dos personagens “desgraçados” que “odeiam” o lugar em que vivem, e se defendem com silêncios constrangedores e diálogos mais agressivos. O ponto de partida é o lado sensorial do futebol (criticada como um vício, “uma paixão inútil, mas que sempre há uma razão para tudo isso. Alguma arte, um Deus , um gol” – que tem Claudio Assis, o jogador ficcional que homenageia a realidade cinematográfica), a crença da torcida e uma ambiência de um espaço cosmopolita e bem menos miserável que o sertão. Aqui, enaltece-se a podridão da vida, o lado animalesco-instintivo dos seres humanos que “estão” indivíduos sociais. “Quem morre aqui, acaba”, diz-se, energicamente, com uma amargura de esperança auto-enganada de que um dia tudo melhorará, ainda que acreditem que não. São defensivos, angustiados, como uma ira resignada. “Ferrolho” busca de forma passional xiita a simbologia conceitual de personificar os demônios vividos internamente de cada um deles, por exemplo, no velório versão New Orleans, que a festa jazzista é substituída pela tipicidade tupiniquim das risadas debochadas e da música tradicional local. O longa-metragem quer a liberdade do discurso, porém recai no clichê da obviedade, da repetição da verborragia revolucionária vitimada. É livre, mas também gratuito, comportando-se como uma peça teatral filmada, que expõe interpretações forçadas, ingênuas, anti-naturalistas, quase preguiçosas da preparação de elenco. Tudo é encenado pretensiosamente: os detalhes, os ângulos, as reações, a espontaneidade e o choque com a escatologia fisiológica (como forma, como essência, como material bruto) dos achismos mais escondidos do corpo, “rasgando” a raiva do limite defensivo às minorias, principalmente à causa L. É amador, desengonçado e caseiro, sem equilíbrio e harmonia no início, contudo do meio em diante, o aprofundamento mantém-se na linearidade. Seus personagens estão a ponto de explodir seus desesperos que crescem e alfinetam mais e mais os outros, os próximos, o sangue do próprio sangue, intercalando com depoimentos de profissão e música de locais não atores, criando assim o hibridismo da ficção com o documentário. “Ferrolho”, em fotografia preto-e-branco, que conta a história de Seu Canário (o ator Everaldo Pontes) deixa a arte do barro por achar que tudo virou cópia, causando sofrimento em sua esposa Odete (a atriz Zezita Matos). O neto Ferrolho (o ator Paulo Philippe – que está impecável e entregue totalmente ao papel) é torcedor do Central. Nos dias de jogo invade residências para realizar seus desejos enquanto sua mãe, Cassandra (a atriz Verônica Cavalcanti), sofre com a morte da amante, vítima de homofobia, precisa da cumplicidade do público para se desenvolver, tudo por causa de seus discursos radicais de sofreguidão unilateral-individual de seus “errantes-sobreviventes”, que trabalham “amassando barro”, fazendo artesanato (que lembra o visual de um cocô), “bebendo no bar”, “tocando uma punheta solitária” e usando a terapia familiar como salvação da própria alma e como uma proteção para não “acordar” o enlouquecimento cognitivo. Eles hesitam em responder trivialidades perguntadas, deixando à mostra silêncios melancólicos; desejos ardentes sexuais; e pequenos delitos de revoltas quase infantis impensadas e ilógicas, quase como uma fuga visceral à esquizofrenia apática, ora por conversas “fantasmas”. Podemos despertar inferência a “Transeunte”, de Eryk Rocha, pelo detalhe do rádio de pilha; e à cinematografia de Cristiano Burlan e seu “Fome”, pelo tédio dos instantes obrigatórios, pela liberdade “podada”. “Cada um tem sua droga”, a androgenia do fetiche-calcinha, estímulo com uma arma de fogo e o desejo sexual promíscuo da terceira idade. E assim, as loucuras são vivenciadas e experimentadas submissamente de forma livre, catártica e em uma epifania libertadora de auto-respeito, vomitando frustrações, descontentamentos, animosidades, improvisos, sensualidade, nudez, intolerâncias, fúrias, rancores, culpas, fracassos, tempos perdidos, oportunidades não aproveitadas e cóleras. Ao entrar na casa, Ferrolho “assalta” sua presença de existir, de deixar rastros e impedir sua invisibilidade à margem da sociedade. É um Robin Hood diferente, porque “rouba” a indiferença alheia, e “presenteando” com a própria merda a “vidas que não são sua”. Concluindo, “Ferrolho” é irregular e amador ao procurar o diálogo estético do discurso radical de Claudio Assis, que vê os seres humanos como vítimas de um mundo hostil, cruel e potencialmente destrutivo, e que utiliza a intercalação de elipses núcleos que se conectam como um filme de gênero coral. Foi exibido no Festival de Tiradentes 2013 e se apresenta como a segunda parte da Trilogia “Sem Cor”, iniciada com “Onde Borges Tudo Vê” e finalizada com “Pingo D’Água”.

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