Por Fabricio Duque

Há filmes que transcendem a definição de gênero, e ao confundir concretismo metafísico existencial da filosofia desenhada ao surrealismo com o hibridismo da forma documental no propósito ficcional, então todo desenvolvimento narrativo objetivado é conduzido por ilimitadas possibilidades do ser, designando o surgimento de uma imagem, cujo lugar na cronologia foca na ausência do presente para construir elucubrações sobre o depois. Em “A Morte de J. P. Cuenca”, do escritor João Paulo Cuenca, fantasia, realidade e imaginação mesclam-se a fim de questionar o confuso jogo de cena apresentado bem à moda de Machado de Assis e seu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, que conta a história que um escritor que morreu, mas que continua existindo e sendo capaz de escrever. Aqui, a metáfora é explícita com a própria vida, de pessoas que cada vez se tornam mais invisíveis à sociedade e ao mundo em que vivem, elevando a máxima de que o progresso do concreto (predial) não se preocupa com mortos, feridos e ou zumbis, estes apenas estatísticas reais ou “eliminadas” por erros de sistema e ou por duplos anônimos. O filme narra o suspense envolvendo um escritor e um anônimo que se utiliza do nome e da identidade do autor para morrer. Se passando em 2008 no Rio de Janeiro durante um período de ininterruptas reformas urbanas, o espectador “acompanha” a investigação desse protagonista inexistente que foi encontrado morto em um edifício ocupado no centro da cidade. Com seu humor típico, perspicaz, espirituoso, debochado e sarcástico, Cuenca (logicamente o personagem principal) embrenha-se nas ruas e prédios da própria cidade “Alma da Lapa”, entre figuras não-atores, câmeras de segurança, uma corretora de imóveis, uma não-atriz tentando ser atriz, um detetive particular, delegado aposentado, tudo por um papel oficial que decreta sua morte. “Tem muita gente que não gosta de mim. Acho que sou uma pessoa desagradável”, diz com seu inflado ego “hipster”. A narrativa constrói um universo sensorial etéreo do mistério à moda estrutural de uma obra cinematográfica de um livre cinema português. “Morrer é um recado”, diz-se soando politicamente transgressor no melhor estilo “Ensaio sobre a Lucidez”, do escritor José Saramago. “Esta história é cafona. Sem limite este personagem”, desconstrói-se a própria linguagem com a liberdade da estrutura amadora (o ruído do ônibus que vaza na conversa) empregada no próprio filme, como o transe no carnaval e o beijo na boca de outro homem. “A Morte de J. P. Cuenca” é uma viagem bizarra de suspense psicológico cósmico com atmosfera Kafka de ser, de multiplicar existências individualistas e sonhos personificados, como as imagens que se refletem em janelas, criando a ilusão visual (como a irretocável técnica da aproximação “zoom” – lembrando explicitamente o estilo francês da Nouvelle Vague) de “estranhos no espelho” (quase um Sidney Sheldon). Sem querer ofender, Cuenca é um “fofo sacana presepeiro” por instituir “sinais” “pegando” vizinhos, passantes, as explicações (de tentar entender o processo e analisar caixões – destaque ao do Flamengo – talvez uma alfinetada) de um agente funerário, e de um médico legista. “A Morte de J. P. Cuenca” exacerba a exposição do conceito autoral, pessoal e intimista especifico pelo viés da arte, como um sexo oral em close, entrando no radicalismo obsessivo da loucura mundana e idiossincrática. O longa-metragem até se firma superficialmente como uma crítica à atualidade de pessoas sobreviventes que lutam para se manterem vivas dia-a-dia, nadando à margem constantemente contra a corrente, porém é no conceito-forma de liberdade amadora que a maestria-magia acontece. Talvez o narcisismo de Cuenca de ser a obra a ser consumida incomode aos mais ortodoxos, assim como sua assumida arrogância existencial, e pode causar propaganda fetichista de si mesmo. Concluindo, como foi dito, há filmes que transcendem seu gênero definidor. Ame ou odeie. Embarcar ou não na história, eis a questão. Recomendado.

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