Por Fabricio Duque
Um das características dominantes e intrínsecas do documentário é sua especificidade em conduzir o tema escolhido pelo fornecimento de particularidades intimistas (“mergulhando” o público na cultura local) como um estudo antropológico-comportamental-popular das ações, principalmente reações, de seres-humanos que convivem socialmente em um meio comunitário desenvolvendo costumes próprios, subjetividades cúmplices, idiossincrasias únicas e um tempo diferenciado de ser e agir. É exatamente neste viés que sete diretores (Julio Pecly – in memoriam; Cavi Borges; Luciano Vidigal; Marcelo Gularte; Paulo Silva; Rodrigo Felha; e Christian Caselli) unem suas visões sobre o Funk, com enfoque geográfico no Rio de Janeiro, em cinco curtas-metragens que dialogam livremente em si, utilizando da estética-estrutura dos programas televisivos da “Furacão 2000”, e pululando a narrativa com intercalações de imagens de arquivos de uma época “inocente” em que a diversão da dança no Baile “bastava” à felicidade incondicional-passional-desmedida. Aqui, a “festa zoeira” do “pancadão” é analisada pela nostalgia de quem fez o Funk acontecer, pelos “sobreviventes” desta arte popular, e pelas “promessas” de sucesso de suavizar a letra “proibidão”, adaptá-la ao pop vendável, difundí-la pelas rádios, televisões, shows e internet, e assim “lutar” para competir com o mercado do sertanejo. Em “Duelo de Titãs: Furacão 2000 versus Cash Box”, podemos conhecer um pouco da história do Funk pelos veteranos (Marcão da Cash Box e Romulo Costa da Furacao 2000) que por depoimentos livres relembram a nostalgia do sucesso da Soul Music de Big Boy, Barry White e James Brown (“a essência do Soul”). Eles (os “craques”) “duelam” por competições (“de quem faz mais barulho e quem tem mais caixas de som”) orgulhosas dos reconhecimentos recebidos do sucesso “estrondoso” das vinhetas que tinham “um som acima do normal” da “maior do mundo na melhor do Brasil” (de quarenta anos atrás) pela verborragia “épica-apoteótica”. “Funk Brasil” busca documentar (explicar curiosidades sobre os porquês dos nomes escolhidos) e “acompanhar” a mudança de época e geração. Se antes, o Funk procurava o meio externo “elitista” longe da favela com a suavização pop da letra (mais inocente), agora o “proibidão” (exacerbando o teor sexual e a apologia do tráfico) dialoga de forma espontânea e natural com os próprios moradores da comunidade, voltando-se a própria linguagem e conversando no mesmo nível (“cantam o que vivem e o que veem”). O que o espectador pode perceber é a atmosfera de apaixonada passionalidade de “pequenos poderes”, “pequenas vitórias” e de “ingênuos marrentos” (que se tatuam com “Jesus” e Símbolo japonês; que pinta o cabelo de rosa; que dançam passinhos sincronizados; e que ostentam cordões pesados, relógios, tênis de marca – logicamente influenciados pelo meio em que vivem). Uma coisa é inquestionável: este movimento é popular e precisa ser respeitado. Em “12 Anos do Bonde do Tigrão”, esses artistas levam “alegria e mensagens boas às pessoas”. “O Funk é uma metamorfose ambulante”, diz-se. Em “Funk, a Alegria do Povo”, o Fabrício, mais conhecido como Menor do Chapa, canta a Favela do Turano. “Funk é derivado do baiano (da Bahia). É freestyle. Foi evoluindo até ser carioca”, diz-se. E precisa ser desassociado do imaginário de que é um “movimento marginalizado de preto e de pobre”. “Tomamos de mídia de assalto”, enaltece-se. “A real essência do Funk é a favela”, pontua-se. Em “Mc Magalhães: Uma Lenda do Funk” homenageia-se um personagem de figura folclórica que reverbera “sofisticação, flertando com a poesia concreta”, disse Marcus Faustini, colunista semanal do jornal O Globo. “Cultura serve para tudo, inclusive para nada”, poetiza-se a máxima popular de construir expressões icônicas. Ainda sobre o protagonista, de “pureza-inocência” a la Bob Esponja, deste curta, por palavras, amigos o adjetivam pela “consciência política bem humorada e popular de protesto que usa com alegria ao sofrimento”. Cada esquete curta experimenta estilos, como encenar situações ao anti-naturalismo e “cavar” a voz-revolta de seus moradores (sobre o conflito com Romulo Costa que não pagou devidamente seu artista). E em “Eu Sou Funk!”, o documentário traz a “promessa” atual do Funk pela Lexa (nome artístico de Lena Araújo – que divide espaço na mídia e nas paradas com Anitta, Valesca e Ludmilla). “Com organização, é possível levar a mulher no Funk a outro patamar, porque historicamente já sofre preconceito demais”, diz “quebrando paradigmas por sempre ter a figura do homem no mercado”. Mesmo assim, a mulher para vencer na vida ainda precisa potencializar o lado mais sexual, com suas roupas justas, shorts curtos à moda de Beyoncé. Entre sensações do Funk (“o patinho feio da música brasileira”) e entre questionamentos de shows para favela versus mega-shows caros, todos tentam brilhar e fazer fama com suas maestrias e qualidades musicais. “Funk Brasil: 5 Visões do Batidão” vem sendo criticamente resenhado com o adjetivo da irregularidade. Sim. Talvez pela diversidade de ideias, ideologias, estéticas de seus diretores tão distintos. Mas uma coisa não podemos negar: é um trabalho interessantíssimo de estudo social sobre uma cultura que tem mais de quarenta anos. Como foi dito, o espectador tem a possibilidade de se embrenhar neste movimento cultural-popular que sobrevive a trancos e barreiros, unicamente pela paixão incondicional de seus artistas, produtores e envolvidos. O documentário transcende o discurso do gostar ou não, servindo-se como mergulho no universo peculiar e único do Funk Carioca. Recomendado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados