Por Fabricio Duque

“Tudo Sobre Vincent” apresenta-se muito mais que uma simples prosopopeia e mais ainda que um conto de fadas. Aqui, o surrealismo comparativo encontra o realismo fantástico ao retratar o cotidiano existencial de um homem “aquaman” (que “recebe” da água a força necessária para ser um super-herói dos tempos modernos e “proteger” o mundo – neste caso, os amigos), por uma narrativa elipse de fragmentos-instantes e sem a “papagaiada” dramatizada de efeito presente na atmosfera das histórias em quadrinhos e levada às telas do cinema pelo Marvel e DC Comics. Essa personificação busca a simplicidade das pequenas ações do auto-descobrimento de Vincent, um homem-peixe (sem os artifícios de brânquias ou guelras) que fica invencível quando entra em contato com o elemento água, este que pode simbolizar a metáfora da vida abundante do universo. Aqui, nosso protagonista, aprende a conviver com a própria solidão e liberdade, sobrevivendo dia-a-dia, entre a necessidade do trabalho, os pequenos prazeres e os “prêmios-descanso“ (como a reciprocidade do amor). A narrativa escolhe o bucolismo da natureza imerso na cidade, lembrando a estrutura do filme “Um Estranho no Lago”, de Alain Guiraudie, com inserções ultra sutis de referenciar cenas icônicas de clássicos de super-heróis, como o quase beijo invertido de “Homem-Aranha” e ou as andanças de “O Homem de Aço” e ou a “mocinha” que parece a “Louis Lane” e ou “O Incrível Hulk”. O paralelismo “suga” as características abstratas-fantasiosas-figurativas de Aquaman e as transforma em possíveis-realistas de uma metáfora naturalista-espontânea, que além de respirar debaixo d’água, consegue ser resistente à mudança constante da pressão (a própria vida e a repetição da luta diária “matando um leão”), imune a veneno de seres marinhos e repteis (mas que tem nas pessoas, e quando ama alguém, sua Kryptonita), força, resistência, durabilidade, velocidade e agilidade sobre-humanas, fator de cura e de revigoramento extremamente rápido quando em contato com água. Sim, o diretor francês, estreante em um longa-metragem, Thomas Salvador, que também encarna como ator o personagem principal, realiza com precisão uma versão curiosa e única sobre o “Rei dos Mares” (o “Habitante das Profundezas”), que prende o espectador com ritmo, utilizando-se da tensão iminente (sem gatilhos comuns e ou clichês manipulados) para construir e desenvolver a trama, como a cena da perseguição policial. “Tudo Sobre Vincent”, que segue a máxima do “menos é mais” (inclusive em seus pontuais diálogos, já que “imagens valem mais que palavras”), transmuta a mitologia em atualidade, o transformando em um “surfista” com roupa de borracha “neoprene” para o proteger na água e pós água, até porque este “extra-terrestre” tem também características humanas. “Tudo Sobre Vincent” sabe fascinar seu público com as limitações de quereres do protagonista, que não busca a fama de salvar o mundo (tampouco ser salvador como Thomas), apenas ter uma vida simples com quem sente afinidades e perto da água, elemento essencial que o energiza e o faz recuperar a força para continuar seguindo em frente. Concluindo, um filme que merece ser assistido, por equilibrar com maestria tempo cinematográfico, interpretações irretocáveis de seus atores, ritmo narrativo, drama existencial, comédia suavizada e tudo sendo livre, leve e molhado. Venceu o Grande Prêmio do Júri do Festival international du film indépendant de Bordeaux 2014 e Prêmio Especial do Júri e da Imprensa em Festival CineramaBC de Balneário Camboriù 2015. Recomendado.

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