Por Fabricio Duque

Há filmes que objetivam a essência e o conceito de sua temática acima de todas as coisas. “Paulina”, do diretor argentino Santiago Mitre (de “O Estudante” e pelos roteiros do cineasta Pablo Trapero, “Elefante Branco”, “Leonora”, “Abutres”), é um deles, por desenvolver aos poucos seu tempo cinematográfico, construindo a imersão do espectador no questionamento social da utopia humanista. Com produção do brasileiro Walter Salles (VideoFilmes), o longa-metragem reverbera o questionamento do discurso dos porquês das ações das classes minoritárias, que agem assim, quase de um esperado instinto animalesco, por causa de uma sociedade cruel, hostil e preconceituosa, que faz de tudo para excluí-los de seu meio elitizado. E é quando a personagem principal, Paulina (a atriz Dolores Fonzi), com vinte e oito anos, abandona uma promissora carreira na advocacia para ser professora em uma região desfavorável economicamente e de problemática opressão na Argentina; sacrifica seu namoro e a confiança do pai, um poderoso-conhecido juiz (Oscar Martinez); sustenta suas convicções de continuar suas aulas-estudo de Ciência Política e Sistema Político para “gente simples” (“pobres” que questionam as “regras do jogo”), mesmo após ter sua crença colocada à prova ao ser estuprada por um grupo de alunos, que sua ideologia é condensada de forma incondicional e sem ressalvas (ainda que os veja como “animais”, e tenha medo e pena social deles). Assim, “Paulina” levanta as questões de se acreditar completamente nos princípios intrínsecos da escolha, os aceitando (incluindo seus “pavios curtos”) e não lutando para os adaptar a seu meio, principalmente por adjetivar (pelo poder da palavra perfeita e de definição absoluta) o material-bruto de seus argumentos e discussões (mais como seres humanos e menos como indivíduos). O início manipula seu público a observar a fantasia romântica de uma “pobre menina rica” que quer ser “mochileira”. “Perder agora do que ficar ressentida, cínica e conservadora”, contesta-se em um embate (“classicista”, “elitista”, de “ideias iluministas”) de futuro entre um pai e sua filha (esta que pede indiretamente a permissão de seu criador). É naturalista-intimista por intercalar com uma entrevista em off, com o sexo enamorado, com picardias amigáveis e cúmplices, humor espontâneo, tudo como uma ruptura do mundo interior ao novo universo paralelo do querer. “Nem quando sou vencida, me dou por vencida”, diz-se. Em determinado momento, a história, começando o gênero de filme coral, conta-se por outra perspectiva, lembrando bem ao longe, “Elefante”, de Gus van Sant (pela estrutura estética), ao enfocar outro protagonista (que é “estudado”, livremente, por uma popular antropologia comportamental, sua moral e seu machismo adquirido). E que recomeça por outra perspectiva: a do pai. A trama dá seguimento, sem queixa, com a confusão “desentendida” de seus próximos e familiares, à letra da Constituição e da Declaração Internacional dos Direitos Humanos. Paulina “reveste-se” de suas obrigações-deveres para com sua profissão, e “vestindo”, literalmente, “a camisa da justiça”, parte a uma pessoal investigação, “descansando” de identificar os “criminosos” (por ordem expressa de seu pai), aceitando as causas da “tragédia”, dando “a outra face”, e entendendo (sem compreender) os motivos, talvez, por uma apaixonada afeição a seu agressor (fornecida implicitamente – sem julgar – imparcialmente até por conta de sua “vítima” – ao espectador em encontrar nos próprios valores o que o “coração” – e também o direito legal – diz). Talvez, essa paz encontrada nesta nova vida, de “fugir” da normalidade, crie desconforto na opinião pública (que deseja “vingança”, “sangue”, “prisão” dos responsáveis e refletir sobre os maus-tratos da mulher em uma sociedade de homens). “Paulina” desconstrói o discurso por fornecer a possibilidade “advogado do diabo” de porquês-tabus às perguntas de “O que ela quer provar? Está em choque? Amor? Loucura? Trauma?” e por “acolher” as consequências. Concluindo, o longa-metragem busca descomplicar e aprofundar um estudo de caso, em que ideologia humanista e existencialismo disfuncional confrontam-se em uma “nova” incompreensão, que desnorteia a lógica legal, provando que há ainda complexas profundezas na mente humana. “La Patota” é uma refilmagem homônima de Daniel Tinayre, que foi realizada em 1960. E ainda se mantém atualizada em seu tema. Talvez por perpetuar a máxima de que certas questões são atemporais. Recomendado.

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