Por Fabricio Duque

Uma das características intrínsecas da cinematografia é a possibilidade de experimentar novas maneiras de se contar uma história. Ao sair do senso comum e surpreender o espectador com a invenção técnica-narrativa, o filme galga sua maestria qualitativa. “Na Ventania” é um desses exemplos que potencializa uma precursora poesia obra artística na percepção visual de quem assiste. O longa-metragem do estoniano Martti Helde (que já “nasce” cultuado por causa deste ser sua estreia na direção) transcende a própria ambiência nostálgica-cósmica de fotografia preto-e-branco que objetivou empregar com a forma de encenar seus atores como estátuas vivas em um grande encenado teatro-museu realista sobre o holocausto da ocupação soviética na Estônia, Letônia e Lituânia em quatorze de junho de 1941, cujos vítimas foram deportados para “ajudar” a política de Stalin: a “limpeza étnica dos povos nativos nos Países Bálticos”, durante a Segunda Guerra Mundial (e assim seguindo os passos-ideais de Adolf Hitler). A trama é conduzida pelos relatos-cartas de uma sobrevivente, que “descobriu” na escrita, uma forma terapêutico de salvar sua esperança, sua fome, sua lucidez, e seu casamento (as endereçando a seu marido). Seu nome, Erna (a atriz Laura Peterson), uma estudante se filosofia mandada para um campo de trabalhos forçados junto com sua filha, sendo separada do marido que foi enviado a uma prisão. A estrutura da poesia-diário livre auto-dramatizada (e da hesitação da leitura para criar o efeito) encontra inferência (porém única) em Terrence Malick e sua “Árvore da Vida”. Sua câmera em plano sequência acompanha personagens e por fusões existencialistas atravessa o tempo e lugares, como se fosse um observador ao som de uma música de piano que martela o sofrimento. “Na Ventania”, que também “abraça” a estética Bela Tarr de ser (e seu “O Cavalo de Turim”), conta-se por detalhes de pequenas ações sensoriais da memória reconstituída, intercalando vida (a felicidade-liberdade incondicional) com a apatia (a obrigação de se transpor os iminentes e desesperançosos instantes da guerra). “A liberdade vale à pena?”, questiona-se com os ruídos-acontecimentos que “invadem” interferindo nas cenas póstumas etéreas e ao mesmo tempo de concretismo sutil (pelas micro-expressões de se piscar o olhar e ou o vento na roupa quando a câmera passeia como se estivesse em um museu de cera de pessoas vivas que não encontram razão para se moverem e à mercê esperada de novas tragédias e punições). E que se não fosse por estas “piscadas”, acharíamos que era alguma técnica de efeito especial. É inevitável não reverberamos a pergunta: “Como o diretor conseguiu tamanha estática com tantas pessoas em cena?”. É realmente surpreendente. Cinema é isso. É também iludir com a encenação conceitual da própria verdade que fantasia a realidade. “O que nos, pessoas comuns, fizemos a grande Rússia?”, diz-se retoricamente, e ultra-subjetivamente analisa os possíveis porquês da guerra (e as consequências de seu caminho “temporário que se tornou permanente” e da “fome constante que só faz pensar em comida” como “um pedaço de pão de aniversário”). “A morte é mesmo mais fácil do que nos espera?”, sobre o desespero encontrado no suicídio. Aqui, o filme, que também lembra “Os Campos Voltarão”, de Ermanno Olmi, conserva sua estética até o final. “Na Ventania” também pode ser um passeio turístico in loco aos acontecimentos, como se fosse fotos que a qualquer momento pudesse acordar do “clima sombrio” e das “nuvens que escondem o sol”, e assim pelo elemento da natureza (a esperança bucólica do vento, por exemplo, do lenço na cabeça de uma delas), essas estátuas ganham um “sopro” de vida. O filme, de equilibrada-harmoniosa sensibilidade naturalista, sem desencadear clichês sentimentais-emocionais, foca na atenção de uma personagem em se manter viva e resiliente no meio dos “ventos que se encontram na ventania”. Concluindo, “Na Ventania” é obrigatório de se assistir na tela grande do cinema, principalmente por sua inovação em experimentar uma estética status quo de “voar” por uma genial novidade visual em quadros vivos de atores imóveis. Recomendado.

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