Por Fabricio Duque

“Trago Comigo”, da conceituada diretora Tata Amaral (de “Um Céu de Estrelas”, “Através da Janela”, “Hoje”) é o fruto ao universo cinematográfico da minissérie, de quatro episódios, de 2009, televisiva homônima exibida na TV Cultural e SESC TV, e que concorreu a quatro prêmios no Prêmio Qualidade Brasil 2009. Optou-se aqui, por necessidade, imprimir ao filme metade da duração, e com cenas inéditas, esta a fim de equilibrar o ritmo narrativo e “amarrar” a trama. É inegável a maestria qualitativa de sua diretora em construir histórias com ambiência sensorial-sinestésica, fazendo com que o espectador sinta a possibilidade irrecusável, “terapêutica”, catártica e de “choque” que é fornecida ao protagonista de revisitar seu passado traumático, expurgar os demônios e se libertar dos fantasmas da época “guerrilheira” da ditadura e da censura à liberdade da arte e de seus artistas. O roteiro apresenta-se por camadas metalinguísticas de um filme documentário ficcional (que intercala os bastidores de uma entrevista fictícia – e o desdobramento de sua história – com depoimentos reais de presos políticos que relataram suas experiências de tortura e prisão, mas mitigando os nomes de seus algozes – por causa da Comissão da Verdade). Seus “revolucionários” precisavam conviver em “clandestinidade” durante o “golpe” AI-5. “Trago Comigo” traz o jogo de cena de uma peça teatral que interfere na própria vida e na memória de seu personagem (e vice-versa), que procura uma “luz” para retornar à “vida”, “acordando-se” em um teatro abandonado empoeirado a “ácaros”. É a metáfora de se revisitar física e literalmente a nostalgia e a emoção do reencontro (não piegas e não clichê de uma felicidade desmedida de se experimentar mais uma vez uma época que volta com “segurança”). A narrativa desenvolve-se por reconstituições naturalistas e espontâneas, inclusive pela interpretação encenada final (visceral, de entrega plena às personagens e não “desistir e pedir arrego com cinco minutos”) da peça que se ensaia e que “ensina” “motivações” a novas gerações. É uma chance de olhar para o futuro, deixar o passado no passado e “conseguir” que nosso protagonista “durma novamente”. “Trago Comigo” é uma aula intimista de uma específica existência pessoal de nossa História, de tentar incutir nos jovens de hoje que estas pessoas (que não se guardava nenhuma foto porque era “perigoso”) “não eram terroristas e sim revolucionários” por tentarem “apenas serem livres”. O protagonista, o ator Carlos Alberto Riccelli (cuja interpretação está irretocável e afiadamente precisa – por transpassar, na medida certa, verdade direta, espirituosa e perspicaz, com seca e bruta defesa realista e com picardias não sensíveis que buscam a cumplicidade totalitária – mas que só se encontram com os antigos “companheiros”, “militantes sem história, sem nome real e sem passado” – que conversam em silêncios e micro-expressões) não “alimenta” dramas, tangenciando-se pelo sarcasmo e a ironia agressiva, vive uma intolerância à mediocridade do desconhecimento (da “luta armada, exílio, umas peças de sucesso, outras nem tanto” e com a atual “namorada” que “enche o saco”), encarna, figurativamente, conduzido pelo controle da passionalidade, um diretor-ator reservado e desconfiado de teatro (impossível não o referenciarmos com José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, um dos maiores dramaturgos brasileiros), e que precisa conviver com atores ruins de um teste de elenco, e de “novela”. “Trago Comigo” recria a brincadeira do “trazer” (“Trago comigo toda a minha fome e todo o meu amor”) e busca “alfinetar” a esses novos atores (“distantes e desconexos”) o ensinamento de “não representar” (mas serem mais “contidos e mais misteriosos” – e menos “novela das oito” e com “outro tipo de intimidação” – menos filme ação americano de efeito) para se tornar este “grupo imbuído de fazer uma revolução, de causa histórica não massificada da vontade “real de uma transformação do país por uma “luta socialista contra o imperialismo-capitalismo”, ainda que usassem “assaltos” radicais (não para “comprar tênis”, mas para financiar a ideologia e despertar a consciência). “Trago Comigo” busca mais o interesse no “clima” e no “espírito” do “guerrilheiro” que foi casualmente absorvido por amor incondicional à “mulher mais linda do mundo”. Só o fato de rememorar, já é, mesmo hoje em dia, altamente subversivo. E a “aula” continua o ensinamento: moldando com embasamentos o que eram “aparelhos”, a arte de ser “invisível” e a “aventura de se ir à padaria”. Esses jovens não conseguem entender como “associar o assalto a um ato heroico” (“É um roubo, né?”, debate-se e recebe “na lata o tapa” verbal: “Você não pode criticar o personagem. É, compreendo que é muito difícil entender para uma geração sem ideologia como a sua”), de se “planejar minuciosamente as ações”, assim questionamentos equivocados são levantados: “Erros? Ter um ideal é um erro?” tampouco compreender “sentido” no discurso apaixonado de uma causa que se acreditava. “Era um movimento elitista” sobre a impossibilidade de se incluir gíria “mano” no texto. Entre Hamlet, de William Shakespeare e jogo de luzes, “Trago Comigo” é um embate sobre motivações, principalmente a uma época em que indivíduos sociais buscam mais a letargia da resignação que a luta resiliente dos próprios direitos. Concluindo, um filme pontual, incisivo, preciso, de uma qualidade excepcional, que constrói drama e realidade com um requinte harmonizado. A sinopse nos conta que Telmo (Carlos Alberto Riccelli), um diretor de teatro aposentado, foi membro da luta armada durante a ditadura militar e chegou a ser preso por seis meses por conta disso. Porém, ele não consegue se lembrar de nada desse período, além de alguns lapsos momentâneos. Para tentar reativar sua memória e descobrir o que aconteceu, ele decide criar uma peça de teatro. Contando com um jovem elenco de atores, Telmo vai reconstruir a sua própria história. Cinema Nacional de qualidade, e que acima de tudo, respeita a inteligência de seu público e que cria a química espontânea de seu protagonista com seus atores coadjuvantes também excelentes. Altamente recomendado.

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