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Uma Moralidade Obsessiva de Uma Sociedade Orgulhosa

Por Fabricio Duque

Uma das características marcantes do diretor iraniano Asghar Farhadi é conduzir o espectador pela intimidades de histórias particularidades de vidas privadas. Nós somos aprisionados em uma experiência de conflitos caseiros, ético-sociais e de questionamento moral. Foi assim com “À Procura de Elly”, em que uma tragédia acorda sentimentos, comportamentos e opiniões adormecidas; depois com “A Separação” (um sucesso absoluto – tanto que abocanhou setenta e oito prêmios internacionais) e “O Passado”. Em seu mais recente, “O Apartamento”, que concorre a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2016 (vencendo como Melhor Roteiro e Melhor Ator), e indicado como Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2017, a história mostra um acontecimento traumático que atenta contra a dignidade feminina, e assim, consequências investigativas (e vingativas) do orgulho masculino em uma sociedade machista (que por passionalidade imediatista, massificada pelo imaginário popular, culpa primeiro a mulher, para depois perceber o erro – tarde demais), e que preza pela honra acima de tudo são questionadas e documentadas.

Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti) são casados e encenam a montagem da peça teatral “A Morte de um Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller. Um dia, eles são surpreendidos com o alerta para que eles e todos os moradores do prédio em que vivem deixem o local imediatamente. O problema é que, devido a uma obra próxima, todo o prédio corre o risco de desabamento. Diante deste problema, Emad e Rana passam a morar, provisoriamente, em um apartamento emprestado. É lá que Rana é surpreendida com a entrada de um estranho no banheiro, justamente quando está tomando banho. O susto faz com que ela se machuque seriamente e vá parar no hospital. Entretanto, é o trauma do ocorrido que afeta, cada vez mais, suas vidas.

“O Apartamento” constrói-se pelo simbolismo da metáfora, que condensa ficção e realidade, como a preparação de um cenário de um filme, intercalando influência nas vidas (como um grande “Cassino Bowling” – a peça filmada e vista do bar) de um professor e uma atriz em uma casa nova, aparentemente abandonada (visto as roupas ainda pertencentes aos antigos inquilinos). Uma situação muito curiosa, quase uma inserção interativa aconteceu aqui no Festival de Cannes. Na cena em que a personagem grita que o prédio está em “colapso”, as luzes do cinema daqui se acendem. Mas não era nada. Assim como no filme, não se configurava como um ataque terrorista.

A narrativa, propositalmente novelesca, que perpassa geograficamente como um percurso turísticos pelas ruas do lugarejo, do longa-metragem de câmera próxima, às vezes subjetiva, que segue colada às personagens, quer que seu espectador adentre inteiramente na história que está sendo contada, e que vivencie plenamente a experiência ofertada: de participar como uma testemunha, até porque a nós não é permitido saber o que realmente aconteceu no acontecimento-tragédia-infeliz. Aqui, tudo pode ser explicitado pela espontaneidade dos valores-princípios intrínsecos de seus participantes sociais de “fazer sempre o certo”. A solidariedade do professor que “acha um prédio ainda vivo” e as reclamações sobre a cidade “desastre”.

A obsessão moral-vingativa-honrosa (quase um ensaio teatral à moda de “Irreversível”, de Gaspar Noé) de Emad faz com que o público seja convidado a perambular por sua investigação, que cada vez encontra mais mistérios e peças desgovernadas a serem inseridas. Ao longo, quando descobre (ou quando acha que percebeu a verdade), a mente estimula as consequências do sofrimento. E novas encruzilhadas-paranóias são desnorteadas, como a presença de outra moradora promíscua. A peça é interrompida. Emad fica sério, irritadiço, agressivo e para de zoar os alunos. Na televisão um “iluminado Bob Esponja” (que é assistido pelo garotinho – um das atuações magistrais do filme). O medo da “solidão” não é a “solução”. E tudo entra em colapso, principalmente o relacionamento deles. Tudo é posto à prova: confiança, respeito, verdade (pela omissão da mulher em alguns pontos – talvez proteção ao próprio marido) e mentira. Não há mais volta ao equilíbrio. A obsessão em encontrar o “culpado” ganha proporções estratosféricas. Trocando em miúdos, é o já conhecido orgulho de macho ferido.

“O Apartamento” pode ser definido como um estudo de caso em que um ideia recorrente torna-se determinante para a ruína, mas que inicialmente era a salvação. A jornada não encontra razões e tempo a arrependimentos. O filme, recorde de bilheteria no país de origem, prende o espectador do início ao fim em um Thriller psicológico de suspense bem à moda da estrutura iraniana. É o quarto filme de Farhadi ao Oscar: “Procurando Elly” (em 2010), “A Separação” (em 2012) e “O Passado” (em 2014).

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