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Um perfeita tradução de uma utopia revolucionária-espirituosa

Por Fabricio Duque

Há filmes que obrigatoriamente necessitam de uma maior maturação das ideias, isto que cria uma questão filosófica, dificultando, assim, traçar linhas analíticas sobre filmes que já nasceram perfeitos, como é o caso de “Capitão Fantástico”, de Matt Ross (ator de “Silicon Valley” e quase estreante na direção de um longa-metragem, seu filme anterior foi “28 Hotel Rooms”). Assistido no Festival de Cannes 2016, concorrente, inequivocamente na Mostra Un Certain Regard, visto que deveria estar clara e explicitamente na competição oficial, confessamos que esta crítica demorou tempo demais para sair do forno mental. Há muito não se assiste um longa-metragem tão utopicamente reacionário sobre a auto-proteção de “reis filosóficos” contra a idiotização da sociedade, neste caso, a americana, e seus “próximos” indivíduos sociais que vivem de forma alienante como “soldados fascistas” julgando com hipocrisia fantasia a adulteração da verdade realista.

A trama envolve o espectador no estilo de vida excêntrico, espirituoso, próprio, particular, revolucionário, “campista”, radical e incompreendido-estranho pelos outros, de uma “clã” família de seis filhos, um pai “urso homem” “capitão” “fantástico” (a metáfora do real propósito da arte de educar) que conduz o barco (e que precisa de muita técnica, regras, sessões de leitura, argumentos e treinamentos para os manter na rédea curta sem autoridade patriarcal, sendo professor), técnico, fiel aos princípios ético-morais subjetivos) e amigo nas horas vagas com o violão (uma catarse-folk-musical de felicidade desmedida à moda de “Wake Up”, do grupo Arcade Fire); e uma mãe que acabou de morrer e precisa ser “resgatada” por sucumbir e ser “abduzida” pelo mundo cruel, “hostil”, “injusto”, “desleal” e que preza mais o conhecimento do tênis Addidas que o conteúdo filosófico dos livros (o deus “Nike” ou o escritor “Spock”) e ou constitucional da “Declaração dos Direitos”.

Eles comportam-se como selvagens vitorianos de uma música de Bach embalados pela som islandês melódico-existencialista-clássico-métrico-poético de Sigur Rós, que fornece o tom exato para que o filme possa desenvolver com liberdade uma equilibrada sinestesia, mitigando clichês e gatilhos comum. A trama é direta, crua e não julgadora entre eles, só contra os “cristãos” (“Jesus não, Pol Pot”).

O universo escoteiro “wild” de “Capitão Fantástico” é educado na floresta e ensina a sobrevivência autossuficiente natural (como o visceral ritual de matar um veado para se tornar um homem; o fogo com pedra; a meditação com a natureza para expandir a consciência; o treinamento luta pela brutalidade não sentimental – “esfaquear para matar”; e a de não “dar o peixe, mas ensinar a pescar”). São “croods” reclusos modernos, exilados apocalípticos por vontade própria, à moda de “A Praia”, de Danny Boyle, “Onde Vivem os Monstros”, de Spike Jonze (por usar o “cérebro” e ter “esperança em um mundo melhor”), e “Na Natureza Selvagem”, de Sean Penn. São índios ancestrais em evolução. São macacos pré-humanos instintivos de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick.

A narrativa cadenciada fragmenta no início a ambiência do dia-a-dia cotidiano de como eles vivem, como as aulas de “emaranhamento quântico”, que pode ser traduzido como outra metáfora e um “um fenômeno da mecânica quântica que permite que dois ou mais objetos estejam de alguma forma tão ligados que um não possa ser corretamente descrito sem que a sua contra-parte seja mencionada”. São perspicazes, usam picardias espontâneas e rebatem firmezas (“não fale como se fossemos inferiores”) e vontades (“de ir reencontrar a mãe”) com o confrontamento de argumentos já mencionados (usam suas palavras condizentes para convence a mudança de ideia), que diz que “os americanos são sub-educados e super-medicados” e “que hospital é ótimo se alguém saudável quer morrer”.

“Capitão Fantástico” é uma crítica acirrada à sociedade e seu meio descontrolado-preguiçoso de viver, mas também é um estudo de caso “advogado do diabo” por levantar a questão de que a vida não é só se aprisionar em “seis línguas faladas” e em palavras adjetivadas de um livro. Eles, “aberrações”, sabem tudo da teoria, mas falta a prática da vida, que fica “incompatível” com a presença de novas pessoas encontradas pelo caminho, principalmente por garotas a um adolescente, este deixou uma “vida” para trás (as cartas as cartas de aceitação de todas as universidades) e que discursa com excelência sobre a luta armada, “marxistas que podem ser tão genocidas como os capitalistas”, o “materialismo dialético”, a “primazia da luta de classes”. “Evite o marxismo ou diga que é um trotskyano”, “Trotskysta – só um stalinista chamaria um trotskysta de trotskyano, agora eu sou um maoista”, estes diálogos revelam o nível de seu conhecimento no campo intelectual, mas um “temido-acuado” ser em conquistas amorosas, que para fazer sexo acha que precisa casar. Todos deixaram algo, por fuga, medo ou ainda por desconhecimento pela poesia alucinógena da luz natural reativada em uma cachoeira”.

Eles vivem em uma comuna “hippie” (caçando e colhendo o que comem – nada mais – com algumas “fugas ao pecado” de comer um bolo de chocolate, por exemplo) à base de uma irlandesa Gaita de fole, quase uma experiência do diretor dinamarquês Lars von Trier (“Os Idiotas”), tudo porque não suaviza nem para dizer a forma trágica que a mãe deles morreu (por “odiar o senso de propriedade do outro mundo dominado por fascistas, estes “militantes nacionalistas violentos”), porque é seco e direto e porque até o choro desesperado transpassa teatralidade (como robôs incompatíveis e “proibidos” de emoção mundana e terráquea).

A reviravolta conflito de “Capitão Fantástico” é colocar em “prática o que leram”, mas com a prudência do “calar e aceitar” e com o saber que é “hora de lutar”. “Nossas ações nos definem, não nossas palavras”, diz-se. E então a missão road-movie em “salvar” a matriarca, sempre com “APOP: acalme-se, pense, observe e planeje”. A música clássica interiorana “do o paraíso fora da república de Platão” da “Vila” New México (referência esta ao filme de M. Night Shyamalan) ganha a aceleração eletrônica quando entram na “civilização” de Washington e no “negócio da América é o negócio”. “Nossa democracia é uma das luzes mais fortes da justiça social na história da humanidade”, inflama discurso critica utópico subversivo. No outdoor “imigração ou invasão?”, reverbera a mensagem da pergunta retórica das ideias do novo presidente americano Donald Trump.

Cada vez precisam reiterar seus princípios de filosofia budista (“lutando contra o controle do pensamento” e comemorando o aniversário de “Noam Chomsky, um filantropo a favor dos direitos humanos” contra o “elfo fictício do Natal”), visto que a América quer os “colonizar”. E seguem com suas “palavras ilegais interessantes”, buscando a perfeita adjetivação “Santo Agostinho” para a definição intrínseca-essencial das ideias e com a utopia de burlar as regras sociais impostas (mas com “estratégia fraca de fuga”). “Poder ao povo! Abaixo o sistema” (frase esta insanamente ensaiada na cerimônia de premiação do SAG Awards 2017). Entre a “artimanha do amor errado” do livro “Lolita”, de Vladimir Nabokov, eles perpetuam a verdade acima de todas as coisas, mesmo quando explica com riqueza de detalhes a pergunta da filha pequena sobre o que é relação sexual ou estupro.

Uma das cenas mais hilárias (e quiça a mais fantástica do filme), quase um nível South Park de ser, é no banco ao observar a cidade e as pessoas ao redor. “Qual o problema deles? Estão doentes? São gordos como hipopótamos”. E a segunda melhor é quando o pai dá o livro “A Alegria do Sexo” à criança perguntadeira de antes. Eles são surpreendidos pelo comportamento dos “outros” (hipócritas suavizados e com medo da realidade que não estão acostumados com sinceridade demais, causando desconforto – como um episódio da série televisiva Black Mirror): a defesa protetora excessiva; a limitação padronizada; os jogos violentos de video-game; a Coca-cola: uma “água envenenada”; a não comida de verdade no cardápio dos restaurantes fast-food; a futilidade do consumo; a não naturalidade da morte como consequência da vida; e os olhares julgadores. Os “outros” usam dramas demais, eles já estão “curados”, quase uma inversão de “A vida é bela”, de Roberto Benigni e ou a música “Traumas”, de Roberto Carlos. Os “anjos” foram “desmascarados” desde sempre com a verdade absoluta e realista. “Religião é uma das piores fábulas já inventadas, projetadas para induzir obediência cega e incutir medo nos corações de inocentes e desinformados”, inflama mais uma vez o discurso.

“Capitão Fantástico” é um soco terapêutico em nossos estômagos. Nós nos damos conta que não estamos sozinhos no mundo liderado por “idiotas”. O “urso” “apanha da “cidade” que se torna a sua ruína. E “aceita a caretice. E a pele lisa. Assim mesmo, igualzinho a nós. Mas um recomeço “Sweet Child of Mine”, Yo Yo Ma e “I Shall Be Released”, de Bob Dylan na voz de Kirk Ross reequilibra seus universos com música, respeito e novas adequações. Um filme único, excelente e perfeitamente fantástico.

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