hell-or-high-water-poster

A distopia anárquica de uma terra de ninguém

Por Fabricio Duque

Se analisarmos a filmografia do diretor britânico David Mackenzie (de “Jogando Com o Prazer” – um que de Brian de Palma; “Encarcerado” – um que de Martin Scorsese; “O Jovem Adam”; “Paixão sem limites”), podemos então dizer que seus filmes buscam muito mais a facilidade da estrutura hollywoodiana por sempre caminharem na linha tênue do cult versus comercial e por se comportarem como produtos mais degustáveis mascarados de gênero independente.

Seu mais recente longa-metragem, “A Qualquer Custo”, que está concorrendo a quatro categorias (incluindo Melhor Filme) do Oscar 2017, e que foi um dos integrantes da mostra competitiva Un Certain Regard do Festival de 2016, emerge-se no universo “sem lei” do Texas para contar a história de dois irmãos que se vingam do “inferno” do sistema bancário.

No interior texano, de época nostalgicamente atemporal, Toby (o ator “galã” Chris Pine – que aqui encarna a naturalidade “ogro” de seu papel) e Tanner (o ator Ben Foster – que como sempre está insanamente entregue e irretocável), irmãos que, pressionados pela proximidade da hipoteca da fazenda da família, resolvem assaltar bancos para obter a quantia necessária ao pagamento. Com um detalhe: eles apenas roubam agências do próprio banco responsável pela cobrança deste financiamento imobiliário. No caminho, eles precisam lidar com um delegado veterano (o ator Jeff Bridges, de “Bravura Indômita”, dos Irmãos Coen), que está prestes a se aposentar.

Para entendermos como funciona o sistema hipotecário americano, pedimos licença para uma rápida explicação. A garantia da dívida é o próprio imóvel envolvido no negócio. Além das parcelas pré-acordadas, geralmente, também é necessário pagar um valor de entrada. O credor detém o título da propriedade até que a dívida seja completamente quitada. Porém, caso não seja possível honrar os pagamentos da casa, o credor detém os direitos para vender o imóvel, com o objetivo de conseguir o dinheiro do empréstimo de volta, com juros, geralmente, de 3,5 a 4,5%.

Dito isto, voltamos. “A Qualquer Custo”, potencializado com seus ruídos e personificações sonoras de tiros e derrapadas de pneus dos carros em fuga, pode ser encarado como um faroeste moderno ambientado em um mundo pobre pós-apocalíptico, principalmente em sua cena final à moda retrograda da época indígena. A narrativa ágil e diretiva aprisiona o público à história por suas perseguições policiais e pela condução da trama, que por exemplo, na cena do restaurante, é impossível não lembrarmos de “Pulp Fiction – Tempo de Violência”, de Quentin Tarantino.

Aqui, temos uma revisitação de um cenário (à moda de “Sicário – Terra de Ninguém”, de Denis Villeneuve) construído por diálogos intrinsecamente verdadeiros e não politicamente corretos, que beiram preconceitos, misoginia e uma explícita xenofobia aos índios, este último um prenúncio das ideias anti-imigratórias do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Sim, o delegado que, por picardia-zoação, alfineta seu parceiro de trabalho não “visualmente americano”, que foge do padrão da “superioridade branco”, aceita calado, submisso a uma pseudo-solidariedade e entendimentos dos maldosos comentários de um enraizado machista inveterado. É terra de “macho”, quase um universo do seriado “Westworld”, lugar onde estes seres podem reavivar estágios de violência sem a punição legal, embalado pela trilha sonora do músico australiano Nick Cave, que reitera aqui a crítica que sempre fez com os temas da religião, morte, amor, América e violência).

“A Qualquer Custo” pode ser traduzido como uma invertida fábula-conto contemporânea por desvirtuar a lição moralista de que os “fins justificam os meios”, lícitos ou não. Eles, nossos protagonistas “selvagens” salvam-se da extrema opressão dos “monstros” capitalistas pelas ações “farinha pouca, meu pirão primeiro” de uma distopia anárquica e intensificada a individualidades de uma particular vida privada. Um filme bem realizado, bem dirigido, bem atuado, mas que se equilibra na zona de conforto razoável, permitida e aceitada, tanto pela explanação de suas críticas, tanto pela estrutura contada. O filme é dedicado aos pais do diretor que faleceram enquanto ele realizava as filmagens.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados