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As Pedras de Dentro do Caminho

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2016


“Mal de Pierres”, que concorreu a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2016, e que ganha a tradução brasileira “Um Instante de Amor”, sofre do mal da preguiça e em acreditar apenas que a simples presença de atores renomados e conhecidos possa galgar um resultado satisfatório. Ledo engano. O filme é dirigido por Nicole Garcia (de “A Pequena Lili”, “Um Belo Domingo”, “Le dernier jour”) e busca envolver o espectador na narrativa bucólica de interferência temporal de uma “comunidade rural”, entre dois momentos explicados: o passado e o presente.

O longa-metragem, baseado no romance homônimo da italiana Milena Agus, escolhe o tom novelesco em ações palatáveis e de fácil absorção. A sinopse nos conta que Gabrielle (a atriz Marion Cotillard sendo Marion Cotillard – com suas forçadas expressões interpretativas) é uma mulher bela e solitária que não sabe lidar muito bem com seus impulsos sexuais (seu desejo pelo professor). “Nunca sei quando é cena ou verdade”, diz. Preocupada com a sanidade mental da filha, cada vez mais perturbada, sua mãe arma o casamento dela com o pedreiro José (Alex Brendemühl). Após sofrer um aborto e descobrir que tem problemas renais, Gabrielle vai se tratar durante algumas semanas numa clínica e encontra a paixão que jamais teve pelo marido em um tenente à beira da morte (o ator Louis Garrel).

Com a estrutura clássica de fotografia nostálgica, fria e quase desbotada, de moldes literários, “Um Instante de Amor” dota seus personagens na passionalidade, catarse, ansiedade, pânico, impulsividade e uma sincera patologia, desencadeando ações dramáticas (quase em nível de um televisivo seriado mexicano em “sofrimentos teatralizados”). Gabrielle, expositiva e geniosa, reverbera a loucura, a nudez, os desejos urgentes, adolescentes, físicos, instantâneos, imediatistas e projetados. Sua mãe, observando sua veia ninfomaníaca, até mesmo por um Jesus, e sentindo a cruz pesada, “passa” a responsabilidade a algum marido. Qualquer um que queira casar com sua filha. Com jogos flertes, ela afasta, mas depois cede, com fantasias sexuais, sendo a “puta do marido”.

A literatura pode tentar entendê-la. Seu vazio, seu descontentamento, sua insatisfação, sua falta de perspectiva, seu tédio latente, sua maldade, seus ataques na Suíça, seus abortos involuntários, tudo “termina mal” e pode representar um “perigo” a sua família e a melhor solução seja mesma sua permanência em um Spa terapêutica à água para curar pedras nos rins. Sua estadia a faz encontrar um soldado (que “serviu na Indochina”), o grande amor de sua vida, e assim viver a co-dependência do relacionamento. Um alimentando as idiossincrasias inventivas , desengonçadas e vulneráveis do outro.

Aqui, sofrer é quase uma iminência esperada e a complicação, um alimento estimulado pela alma. Primeiro vem o amor, depois o inferno. O abandono. A perda. Quando um quer, o outro foge. O filme descamba potencialmente ao sentimental. Vem o marido corno. Vem a terapia. A psicopatia. A crueldade egoísta. Os desvios de personalidade. O mal de amor e a essência máxima do Romantismo. As resoluções resilientes. Os olhares distantes. E os conflitos que são facilmente contornados pela obviedade.

“Um Instante de Amor” é acima de tudo uma metáfora fábula do amor. Em “quebrar as pedras”, em ser feliz no hospital. E do final da cura. Mas sua fragilidade não está na premissa e sim na sua forma. A narrativa usa e abusa de gatilhos comuns ingênuos para contrastar afetuosidades, aprendizados e diferenças.

Todo o filme foi construído para desembocar em seu final e na percepção explícita da grande reviravolta (tentando a sagacidade perspicaz surpreendente de “A Criada”, de Park Chan-wook). Nós somos aprisionados em um realismo fantástico psicológico esquizofrênico, que desvirtua tempo, perspectiva, razão, o “amor impossível por moribundos” e a “verdade que liberta”, sentimentalizando e tranquilizando pela música que rasga a cena, fazendo com que nós do público, obrigatoriamente cúmplices, estivéssemos em intervenção prisional. “Um Instante de Amor” é raso, óbvio, dramático e transpassa uma direção preguiçosa e nivelada por baixo.

“Nunca tinha trabalhado com a Marion, mas assim que li o argumento pensei logo nela para o papel. Foi a melhor escolha para mim, para ela e para o filme. O Louis conheço um pouco melhor e há mais tempo. Acho que ele e ela fazem uma parelha extraordinária”, finaliza a diretora Nicole Garcia, durante a coletiva de imprensa em Cannes.

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