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Por Fabricio Duque
Direto do 69. Festival de Cannes 
12 de Maio de 2016

 

“I, Daniel Blake”, que concorre na categoria oficial competitiva a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2016, representa mais uma vez uma crítica fábula realista ao sistema inglês, que não “aceita” cidadãos sociais e sim robôs lobotomizados às formalidades engessadas de assistência de seguridade aos indivíduos que compõem a comunidade que vivem. Daniel Blake é a personificação deste problema que afeta todo o mundo. Suas regras não possibilitam ajudar e ou se preocupar com o próximo. Os trabalhadores manuais, que trabalharam uma completa existência (visto a idade avançada), adjetivam-se “disléxico” por não conseguirem a habilidade necessária para o pragmatismo prático dos “formulários onlines internetescos”, precisando virar máquinas sem emoção. Contudo, é no próximo que a solidariedade existe. Uns buscam ajudar ainda que sem a moral padronizada da sociedade. Um contrabandeia tênis da China, outra precisa ser prostituta para alimentar os filhos e conservar um último resquício de dignidade (orgulho mesmo), visto que trabalharam durante muito tempo e quando a dificuldade aperta, existe até a opção de morar na rua. Sim, são tempos que seres viram “cachorro” e “números cadastrados”. A única coisa que Daniel Blake queria era “ser cidadão, nada mais, nada menos”, de um tempo que a “palavra valia mais que provar que entregou um currículo com uma foto de celular”. Ele é confrontado quando só presta conforto e “consertos”, mas se priva de ser consertado. O filme de Ken Loach (de “Route Irish”, It’s a Free World”, “My Name is Joe”) foi ovacionado, levando às lágrimas os jornalistas mais insensíveis. Sim, o longa-metragem corrobora a radiografia problemática de seu país e por isso é o “pai” do cinema social de tentativa de consertar pessoas com humanidade e com menos politicamente correto (sem uma estrutura de Saúde, Dentista, porém com mercado popular de graça quando “se prova” a pobreza vivida. “I, Daniel Blake” é austero, sensorial, sinestésico, espontâneo por suas ações cruas, duras, diretas, sem rodeios, que fazem o espectador sentir a duração elipse de uma hora e quarenta e oito minutos (“uma partida de futebol”) e o comportamento agressivo “esquentado” “sem papas na língua” (quase Hooligans de ser – de partir para violência física e principalmente verbal – esta por um deboche explícito de zoação), talvez pela constância do tempo chuvoso, nublado, frio e sem sol. Ele aos poucos vai “dançando conforme a música”; aprende com “custo” a arte de se “conectar”. A grande mensagem do filme é a de que não há no mundo de hoje lugar para artistas habilidosos da mão e da força. O melhor não é o bastante. “Fazer o melhor não é o necessário”, lamenta-se, lembrando a nostalgia de um tempo que se escrevia à mão; do amor “gênio forte” adjetivado com afeto. Na verdade, trocando em miúdos, o que “I, Daniel Blake”, no roteiro primoroso de Paul Laverty, quer transmitir é a de que o próprio sistema destrói o próprio sistema, pelas regras burocráticas intermináveis (‘de manipulação distorcida”) que só fazem complicar simples questões, com interpretações irretocáveis e ultra naturalistas de Dave Johns (o protagonista Dan) e Harley Squires (a amiga ajudada). Concluindo, recomendado.

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