Por Fabricio Duque
Direto do 69. Festival de Cannes
11 de Maio de 2016

 

A máxima conhecida no universo cinematográfico, de que até o filme mais comum do cineasta americano Woody Allen ainda é bom, permanece. Sim, o próprio diretor disse na coletiva de imprensa que “talvez tenha adotado uma perspectiva de tristeza”, aparentando uma maior leveza, uma espontaneidade mais natural e um humor mais desesperançoso, quase depressivo, sem maiores expectativas, talvez tenha sido isso que “alterou” sua direção (soando um desânimo prático) de seu novo filme “Café Society”, que teve sessão à imprensa e é a abertura oficial do Festival de Cannes. Contudo, é a figura “mitológica” de gênio que faz com que seus longas-metragens sejam enaltecidos muito antes de serem assistidos. Na primeira sessão da manhã, às dez horas, a fila interminável ganhava o característico “caracol”, logicamente era de se esperar. E até mesmo o próprio Festival de Cannes fez”prévia “fofa homenagem” ao introduzir jazz durante a espera. E eis que o filme começa. E eis que o inevitável acontece. Logo nos créditos iniciais com a típica trilha-sonora da abertura, o arrepio toma conta do cinéfilo mais “bruto” e insensível. “Café Society” está sendo “acusado” e julgado pela repetição estrutural de mesclar os próprios gatilhos comuns de seus filmes anteriores de forma irregular e quase preguiçosa. Tudo devido a escolha de seus atores, que mesmo com a preparação de Woody Allen (que faz qualquer ator mediano ser um ótimo ator). Só que aqui a responsabilidade seja demasiadamente potencializada. No elenco temos o alter-ego “quero ser Woody Allen” de qualquer jeito, o ator Jesse Eisenberg, que contracena com “sexy sem ser vulgar”, a atriz Kristen Stewart (a eterna “Crepúsculo”), que contracena com Steve Carell (sendo Steve Carell – sem tirar tampouco pôr). Os três vivenciam um triângulo amoroso reverberando os temas favoritos do diretor: o comportamental “quase europeu” do amor livre (em que pessoas se apaixonam e se desapaixonam como se tivessem mudando de roupa – literalmente). Um dos questionamentos do roteiro (também escrito por Woody – quase um independente por agregar inúmeras funções e estar presente diretamente em todas) é sobre a crítica da simplicidade versus pretensão. Da mudança dos princípios morais. Hora da caça, hora do caçador. Uma vez amante, e quando consegue o querer-desejo, torna-se amante do amante do início da história. Ufa! Como foi dito, há no roteiro um hibridismo. Uma necessidade de diversificar a narrativa, abordando o noir; crimes “inocentes”; sendo referência clara ao espectador lembrar de “Tiros na Broadway”; “Meia-noite em Paris”; “Um Misterioso Assassinato em Manhattan”, entre outros. Outro elemento do roteiro (de verdades ingênuas – timidamente – constrangedoras) é reiterar a paixão de Woody por Nova York (inovando com o protagonismo da fotografia – que também faz o “jogo” de criticar Los Angeles, um desbunde maravilhoso que faz arrepiar, principalmente pela cena do “crepúsculo” – talvez uma “brincadeira” com o filme da atriz Kristen; e ou da ponte – simetria propositalmente mal enquadrada; e ou, a melhor do filme, a cena à luz de velas em “travelling” – e sem trilha sonora nos diálogos, apenas a ambiente – o “dogma woodyalleano”). Se em L.A, a luz é ficcionalmente artificial, “hostil” e “pretensiosa” (e funciona “desmitificando” o lado “society” dos famosos – dando humanidade e alma particular e individualista – até o “roubo do açúcar na bolsa de luxo”), já em NY, o saturamento da imagem ao brilho simboliza a naturalidade, lugar em que a vida-existência acontece em sua plenitude. Há inúmeras outras sacadas como a vida de um personagem que parece um filme (mais uma história – o ingênuo novaiorquino que fica “fascinado” com a vida glamourosa de Hollywood, e que “ganha” alimentações sentimentais de outra que “aproveita a possibilidade”). Assim, o filme vai experimentando ângulos de câmera à moda de “A Um Passo da Eternidade”, de Fred Zinnemann (inferência) e ou “The Woman in Red”, de Gene Wilder (explícito e citado no filme); experimenta “interrupções ensaiadas”; conversas “judias”; o “jazz qualquer hora da madrugada”; humor espontâneo; lugares intimistas; câmera que “levanta” da cadeira e acompanha em plano sequência a personagem; “flores” por culpa. “A vida é uma sádica comédia”, diz-se. “Uma não resposta também é uma resposta”. E no final, todo a preparação dos atores descamba unicamente à expressão do olhar de seus personagens. E assim, desta forma, “Café Society” conquista de uma vez por todas seu cinéfilo-espectador. É comum, mas é bom pacas. Recomendado.

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