Por Fabricio Duque

“Maravilhoso Boccaccio” é o novo filme dos irmãos italianos Taviani (de “César Deve Morrer”), livremente inspirado na obra “Decamerão” do libertário autor referenciado no próprio título, e corrobora a tradição de suas obras em continuar com o teatro-ópera de música-clássica de efeito catártico, as interpretações dramatizadas e com a fotografia conto de fadas realista (por suas cores intensas que remetem obras do diretor Derek Jarman e seu “Caravaggio”) que participa ativamente como personagem ao nortear estações, espaços e elementos naturais. A trama acontece em 1348, durante a peste negra que atingiu Florença, na Itália. Giovanni Boccaccio foi um poeta humanista, e realista; contista de fábulas-alegóricas; crítico literário italiano, especializado na obra de Dante Alighieri, tanto sua fascinação que mudou o título de “A Comédia” para “A Divina Comédia”; e observador escritor de biografias de mulheres ilustres. Aqui, na adaptação cinematográfica,Vittorio e Paolo Taviani preferem suavizar as histórias do homenageado, optando por uma liberdade “politicamente correta” conceitual que é transcorrida pela atmosfera do amor incondicional (físico, emocional, catártico, sensorial, sexual). Tentando fugir do sentimento de morte que ronda o lugar, um grupo de dez jovens, 7 mulheres e 3 homens (dez pessoas que simbolizam a figura personificada da comunidade-família) decide fugir para uma casa no campo (enaltecendo a estrutura bucólica do romantismo). Lá, eles contam histórias sobre a natureza comportamental humana para passar o tempo (à moda de Xerazade, de “Mil e Uma Noites” – para não se “perder a cabeça” com depressivos pensamentos, para conservar o otimismo e a esperança, e para permanecerem salvos dentro da solidariedade naturalista do afeto). Entre tentativas etimológicas das questões morais e as tarefas necessárias-oportunistas para sobreviver, eles aguardam a decisão sobre quando vão voltar para a cidade. As histórias contadas versam sobre preconceitos; possibilidades de pequenas vinganças (e a transformação violenta de um ser íntegro por causa do poder da “invisibilidade”); a paixão “ilimitada” à moda de “Romeu e Julieta”; e um falcão amigo que “serve” de uma orgulhosa oferta ao “objeto”, projetado exponencialmente, amado. Assim como Miguel Gomes na adaptação literária árabe, aqui os contos ganham forma, contexto e mensagem final parábola, questionando e confrontando sentimentos intrínsecos da existência de indivíduos sociais que, mesmo em grupo, só conseguem enaltecer seus desejos mais íntimos, individualistas e egocêntricos, usando o outro como “desculpa” terapêutica a defender seus atos. Como foi dito, é um teatro tragédia grega de colagens estéticas (e experimentações artísticas – como a câmera de baixo que transforma o intérprete em “monumento” histórico emocional) de esquetes dotadas de sensibilidades, lealdades, dramas, tom espirituoso, e “finais” (este último uma das regras do grupo “contadores”) que “colocam” seus personagens “contra a parede” para que escolham um lado (não necessariamente o certo, mas definitivamente o que mais representa o coração). Sim, a narrativa precisa da contemplação temporal para que possa se desenvolver, construindo, assim, uma visão “bonitinha” e apaixonada do escritor considerado mais “debochado” da história. Exibido no Festival do Rio 2015. Recomendado.

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