Por Fabricio Duque

“A Bruta Flor do Querer” é, acima de tudo, um filme “na raça” de seus diretores, Andradina Azevedo e Dida Andrade (também os atores), porque foi realizado com a ajuda dos amigos, sem “leis de incentivo e ou patrocinadores”, apenas com o querer “bruto”, “febril” e “sobrevivente” de fazer um filme. Apresenta-se como uma experiência-metalinguagem (usar o cinema para se discutir a essência objetivada do cinema – lembrando uma das cenas do romeno “Quando Cai a Noite em Budapeste ou Metabolismo”, de Corneliu Porumboiu) de estética paulistana, musical, beatnik (uma desesperança “underground” de prisão “pânico” resiliente à moda de Jack Keroauc e seu “On The Road – Na Estrada”; suas drogas, seus amigos, suas dúvidas existenciais), utópica (a la Glauber Rocha – o cinema novo; e a la “trupe” da Nouvelle Vague”), contemporânea e de filosofia existencialista-coloquial, que questiona o confronto entre o querer ser e o precisar sobreviver. A demora em escrever estas linhas analíticas (e livres – seguindo assim a essência intrínseca da própria obra em questão) deu-se porque chega a ser quase impossível parar de pensar nas infinitas camadas que o curto longa-metragem (de narrativa dividida em quatro partes – como um “livro-filme” de Lars von Trier) reverbera em seu público. “A Bruta Flor do Querer” questiona a “pressão” do mundo competitivo-moderno em “ter que ter” sucesso “unilateral massificado” de “felicidade padronizada”, contando a história de um estudante de Cinema, que precisa “filmar casamentos” (“vender-se ao sistema”) para sobreviver (lembrando o filme “Tropykaos”, de Daniel Lisboa). A festa filmada (um “trabalho artístico”) projeta, por imagens caseiras de um casamento, o questionamento de que aquele universo “real” é mais “ficcional” que documental, pois quando se liga uma câmera, a naturalidade se dissipa e apenas “atores” não profissionais são “assistidos”. “É mais indigno filmar casamento que fazer cinema?”, defende-se. É um longa-metragem musical, devido a inserção de específica trilha sonora ao momento (como a cena de sexo, uma música indicativa noir; e ou a de Federico Fellini e sua “alegoria” da vida). Pode ser interpretado também como um “ajuste de contas”, um “desabafo”, de um jovem que “luta” (em preto-e-branco de boxe a la “Touro Indomável”, de Martin Scorsese) para “tentar” viver seu “querer” mais intenso (assim como um típico paulistano). “O cinema morreu. É uma puta velha com DST”, dramatiza com desespero o sentimento de desânimo (“é que parece que nada vai melhorar”), descrença, quase desistência (“ainda somos muito novos para achar que as coisas já acabaram”), durante uma conversa (mais como um embate da “arte versus o comercial”) pós-sexo sobre a arte de se fazer cinema (ele, realista – “As pessoas só irão assistir o que vai fazer a cadeira tremer”; ela, sonhadora). “A gente é minoria; não encontramos lugar para fazer o que gosta”, resigna-se, reverberando a dificuldade de se alcançar o “querer bruto” (inferência aos filmes de Cristiano Burlan e seu “Amador”). O personagem principal (o ator-diretor Dida Andrade), um típico “marrento”, sarcástico, debochado, livre, irônico, raivoso e verdadeiro Jean-Paul Belmondo “abrasileirado” (pela intensidade da música “Vinte Anos Blues”, de Elis Regina – que rasga a alma) não perde a “faísca” e continua escrevendo roteiros (e os imaginando em um mundo monocromático – o cinema clássico não colorido – que “viaja um pouco” e “tem cabeça efervescente”). “Você é um artista; um cara que trabalha com cinema e tal. Poderia estar trabalhando em um restaurante, mas está ganhando duzentos reais e ainda colocando uma câmera na mão”, desmerece-se com crueldade quase de destruição interna “assassina”. As drogas servem como uma fuga da realidade, adentrando-se em uma ficção (com referência explícita pelo livro “Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’N’Roll Salvou Hollywood”, de Peter Biskind), e pelo “mergulho” da imagem do vídeo na imagem (personagem de seu protagonista “covarde, querendo estar em “A Bonequinha de Luxo”, de Blake Edwards – que conversa com a câmera – à moda de “Os Incompreendidos”, de François Truffaut; mas que vive um mundo desconexo “Matrix” de ser e tímido). “Que triste não viver um cliché”, diz e observa com “Baby”, de Gal Costa, e com experimentações estéticas de luz, sombras e “pseudo erros” (objetivados) da fotografia (com “Meu Refrigerador não Funciona”, dos Mutantes – cena esta que “chapa” completamento o espectador). Há música clássica, ópera, o jazz a la Woody Allen (e indiscutível homenagem no roteiro), o “terror” da cidade no ruído-suspense, tudo na verdade é sobre o amor. Platônico (passivo que intimida) e audacioso (ativo que machuca). “A vida é um constante ato de sobrevivência”, título da terceira parte sobre uma finitude plena, efêmera e indecifrável aos jovens (que sentem – e os adultos aceitam). “A Bruta Flor do Querer” pode ser “sentido” como um “desabafo-catarse” terapêutico (de “aceitar a própria demência” para se curar) e também como uma “paixão” incondicional de um “psicopata alucinado”, que “briga” contra a “ditadura dos normais”. Concluindo, um filme autoral, conceitual e contextual, dedicado “para aqueles que duvidaram”, que ainda referencia Raul Seixas, Tenesse Williams, Duke Ellington, Caetano Veloso, Brahman Grobadi, The Doors, John Cassevetes, Luis Sérgio Person, Dino Risi, Ettore Scola, Pink Floyd, James Dean, Stanley Kubrick; e com “amor e fúria” desenha magistralmente. É a essência de amor mais puro pelo cinema. Foi exibido no Festival de Gramado em 2013. Aqui, o conteúdo ganha da forma. E vamos correr ao cinema e permitir que o filme dure várias e várias semanas. Imperdível!

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