Por Fabricio Duque

 

“O Signo das Tetas”, baseado no livro homônimo do poeta Nauro Machado (que integra o elenco), representa o mais recente filme maranhense do diretor Frederico Machado, corrobora sua estrutura exponencialmente autoral de sua obra anterior, “O Exercício do Caos”, de contexto existencialista e de conceito à moda livre do Cinema Novo de Glauber Rocha, e assina um desenho cinematográfico de característica observação introspectiva (de epifania-catarse-silêncio que se projeta – e transmuta a própria essência – de dentro para fora). É um curto longa-metragem de exercício estilístico “on the road” (de elipse temporal por possíveis e necessários meios de transporte para se “concluir” a chegada em um destino “sem rumo”) de pura poesia coloquial (rebuscada pela “escolha” da exata adjetivação da palavra – como definição definitiva – “pariram-me com a morte, mataram-me com a vida”) por uma individualizada “aventura-terapia” (um reencontro com o próprio ser), que por consequência desencadeia a personificação visual da representação de memórias, lembranças, medos (“de tudo: da família, de falar”), anseios, esperanças resignadas e tédios resilientes, cuja narrativa encontra a atmosfera de “Mãe e Filha”, de Petrus Cariry (que por sua vez integra a parte técnica como Correção de Cor). É um filme “inferência” de camadas-detalhes, que tem metafóricas “por todos os lados” (já foi dito que um “homem é uma ilha”), permitindo que o espectador finalize a conclusão sobre o que aconteceu. É um resgate da própria existência, de “mergulho” nas próprias profundezas a fim de que se consiga alguma resposta-cura-milagre (“A gente cresce e vai se travando todo”) e pelas “fugas-descanso” da jornada (as festas e seus transes). O protagonista (o excelente ator Lauande Aires) entrega-se a suas dores, a sua solidão, a suas perdas, a suas “ausências”, e suas “palavras embaralhadas”, a seus abandonos e ao “amor”-carinho comprado” (este com a possibilidade de revisitar a sinestesia sensorial do passado – as “tetas da mãe”, o leite análogo), tudo com o silêncio desesperado, o pensar perdido, a natural aceitação do estágio, e bem no fundo, o sonho de que todas as coisas voltarão a ser como antes – a presença e cuidado da mãe – o amor verdadeiro). “Tristeza, quando ataca a gente, parece que rouba a voz, tipo uma coceira, evitando-se falar para coçar menos”, diz-se quase em monólogo disfarçado em conversas sociais com tipos encontrados e ou “invocados” pela memória. “O Signo das Tetas” comporta-se de forma intimista, como um material-bruto, de apresentação crua, tendo a nudez corporal de corpos comuns em êxtase, sem tabus (do sexo, do desejo primitivo, do instinto animal – “chupa meu peito”), libertária e espontânea como uma companheira protagonista (lembrando o filme “Intimidade”, de Patrice Chéreau), por se embrenhar como um elemento físico (a epiderme que molda, apresenta e define seus seres a serem o que são – e da visão que cada um tem de ser e do outro). É um filme corajoso, porque além de libertar o protagonista (em sua paz e ou recomeço) “usando” a cumplicidade de seu público, expõe, na última cena pós-créditos (portanto caro leitor, espere subir as legendas finais) a conclusão de sua “fábula realista”. A sinopse nos conta que um homem vive no limite entre razão, loucura e em busca de seu passado. Para isso, ele percorre diversas cidades do interior do Maranhão para tentar reconstruir sua história, reencontrando signos de sua vida, mostrando um possível caminho para sua salvação. Esta é segunda parte da “Trindade Dantesca” ou “Trilogia da Existência”, que contou com “O Exercício do Caos” (2013) e “As Órbitas da Água”, seu próximo filme. “O Signo das Tetas”, exibido na Mostra de Tiradentes 2015 e na Mostra do Filme Livre 2016, é uma experiência-exercício altamente recomendada.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados