Por Fabricio Duque

Talvez o segredo do sucesso no campo cinematográfico seja mesmo sua fluida liberdade em desenvolver temas, corroborando a máxima do “menos é mais”. Assim, quanto mais se pensa sobre “A Senhora da Van”, de Nicholas Hytner (de “A Razão do Meu Afeto”; “Sob a Luz da Fama”; “As Loucuras do Rei George” – último este que mais se assemelha em temática no filme em questão aqui), mais camadas psicológicas são reverberadas. Sim, talvez a palavra quantitativa recorrente seja mesmo o “mais”, porque é um longa-metragem de elevação de níveis, devido às sucessivas metáforas sobre a humanidade, sociedade e suas idiossincráticas individualidades, que precisa adequar seus subjetivismos em prol do “bem comum” (a “fragrância gentil”), como por exemplo, o conceito de comunidade, em que decisões são acordadas em conjunto com o objetivo benefício dos próximos necessitados. É inevitável não o referenciar ao novo filme de Thomas Vinterberg, “Die Kommune”, que foi exibido na competição oficial do Festival de Berlim 2016. “A Senhora da Van”, adaptada da peça teatral homônima do roteirista Allan Bennet, em 1999, pode ser uma crítica àqueles que “empurram com a barriga” situações sociais (o mau cheiro – “odor primário”, o lixo, as dificuldades da moradia) por “quinze anos”, por comodismo e ou por costume e ou por maniqueísmo social e ou por total falta de conhecimento do que fazer. Tudo personificado na representação de uma idosa, demasiadamente sincera, altiva, ingenuamente manipuladora, politicamente dramática (“só busco um último lugar para deitar a cabeça”), defensiva, arrogante, “irritante”, espontânea, impulsiva, preconceituosa, “domada” por alheias massificações, carente, repulsiva. Sim, é a plena e completa figura da Europa, traduzida por uma fábula realista em uma confrontada nostalgia presencial e em uma fantasiosa geografia, o bairro real Camden Town, em Londres. Aos poucos, podemos nos afeiçoar a esta “difícil” senhora, por causa de sua história (“essencialmente real”) e de sua particular vida (“sempre a essência da pobreza” – “cebolas comidas cruas e jornal umedecido”). Outra característica de sua narrativa é “separar” (em aparições construtivistas) personalidades e vivências (“Há o eu, que escreve, e há o eu, que vive”), como duplos de uma mesma pessoa (que “conversam entre si e trocam ideias”) e como uma fusão existencial do escritor e do “colecionador” das histórias (o conhecimento do mundo – “vida louca e criativa” – aproveitando o “encontro” a fim de “experiências ricas” – o “chão como quadro negro”). “Escrever é como falar comigo mesmo”, explica-se, enaltecendo a estrutura de um teatro coloquial à moda de Samuel Beckett. A Senhora da Van (a excelente e irretocável atriz Maggie Smith) padroniza influências dos meios que viveu, como a Igreja Católica (era freira e abriu mão dos sonhos, dos quereres e das vocações para se entregar a Jesus Cristo e ao “estacionamento cristão”), repetindo o discurso intolerante e radical contra o diferente (gays, comunistas, entre tantos outros), e é “aceita” por seus “vizinhos”, tendo suas idiossincrasias respeitadas e seu gênio forte. Que por sua vez, a protagonista também desencadeia influências, como a importância inicial e a “substituição” d e uma nostálgica e “culpada” personagem geradora. Como foi dito, é aos poucos, que o público muda o ponto de vista irracional ao humanizado. A sinopse nos conta que Mary Shepherd é uma senhora idosa, que mora dentro de uma van. Devido aos seus hábitos pouco higiênicos, os moradores não gostam nem um pouco quando ela decide estacionar o carro próximo à sua casa. O único que a tolera é o escritor Alan Bennett (Alex Jennings), que permite que ela use seu banheiro de vez em quando. Após algum tempo, os moradores conseguem que a prefeitura proíba que qualquer carro fique estacionado no bairro. A intenção era que a ela deixasse o local, mas ela encontra uma saída quando Alan oferece que estacione na vaga existente em sua própria casa. Mary Shepherd (a Maria, mãe do “Filho de Deus”) sente na pele os percalços de seu caminho: a dificuldade de se adaptar à contemporaneidade (e à sociedade); de abrir mão de seus comodismos comportamentais; de recomeçar e “aprender” a sutileza e a gentileza. É um filme de inúmeras camadas, que reverberam por semanas, principalmente quando “assistimos” moradores de rua dormindo em seus cobertores, e então somos colocados a pensar (e imaginar) suas histórias. O diretor disse, em uma entrevista ao jornal The Guardian, que a Van que a equipe utilizou foi invadida por um casal, que permaneceu lá durante uma semana “se divertindo”. Após a descoberta do fato, as peças internas foram retiradas pelo departamento de arte para serem cuidadosamente lavadas e recolocadas em cena limpas para o uso dos atores. Concluindo, recomendado.

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