Por Fabricio Duque

“Quanto Tempo o Tempo Tem” apresenta-se como um estudo sobre o elemento tempo, o transmutando da existência abstrata à personificação representativa do palpável por análises filosóficas metafísicas de professores especializados, pensadores e poetas (André Comte-Sponville, Marcelo Gleiser, Thierry Paquot, Arnaldo Jabor) de que o “homem se libertou do sol” devido ao “relógio mecânico” que mudou a estrutura de contagem “temporal”, reverberando Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Lutero. Aqui, a narrativa clássica documental intercala os depoimentos explicativos didáticos com interferências poetizadas da própria diretora Adriana L. Dutra (de “Fumando Espero”), que tem a co-direção do mestre da fotografia Walter Carvalho (que recorre a técnica de Time-Lapse – um processo cinematográfico em que a freqüência de cada fotograma ou quadro (frame) por segundo de filme é muito menor do que aquela em que o filme será reproduzido; quando visto a uma velocidade normal, o tempo parece correr mais depressa e assim parece saltar (lapsing)”. “Espera-se sempre pela próxima urgência”, diz-se, abordando a “velocidade absurdamente rápida de informações instantâneas”. O espectador questiona seu próprio “gasto” do tempo, tornando-se “simultâneo e conexo”. O quantidade “ofertada” é insana, surreal, que causa uma estressada pressão por causa da “impotência” de realização das tarefas: o volume de novos livros, de novas músicas, de novas notícias, de novos filmes, e ainda com o agravante de “alienação” viciante das redes sociais (que é ter que viver a felicidade para “postá-la” em tempo real para poder “receber likes”), reverberando uma procrastinação de fuga defensiva (que por sua vez leva a falta de concentração – “dispersão” – e a ativação da “bola de neve” de um mundo a la “Matrix”). Vivemos uma “solidão acompanhada, compartilhada, que desorienta”, instaurando-se um “estado de perpétua incompletude”. Nossa vida é praticamente um “broadcast alive” de “personalidades fragmentadas” que “vive cercada de telas por todos os lados” (estamos em uma ilha) em “ensinos” mais “rasos” e superficiais. Cada vez o analógico está mais distante. Não muito distante, havia um tempo que podíamos aprofundar conhecimentos (pelo “ócio criativo” – um “tempo para não fazer absolutamente nada”) e ou até mesmo críticas de cinema, vide este nosso espaço, que cada vez precisamos pensar, desferir palavras, concatenar ideias, tudo em um curto período. Hoje há também uma inversão de valores, em que “pais precisam do conhecimento tecnológico dos filhos”. O “tempo é a moeda mais preciosa”, tudo porque é perdida de forma efêmera, em corridos segundos que transformam o presente no passado (que não volta). Sim, é surreal a co-dependência temporal que o indivíduo criou: “tempo é dinheiro” (e quanto mais se “troca, mais se enriquece”, principalmente pelo “trabalho”, que na verdade, “era um objeto de tortura”, condensando a “escravidão: que é roubar o tempo dos outros” e a máxima de dominar o “mais tempo, mais estimular o pensamento”. “O que fazer com o tempo? Todo dia andar na praia?”, pergunta, retoricamente, Nélida Piñon. Entre simbiose homem-máquina; conceito de transumano – pós humano; transcendência; mito de Frankenstein; a finitude que nos define e nos limita socialmente (impossível não referenciarmos ao livro-parábola “As Intermitências da Morte”, de José Saramago, e ao vampirismo – que não se “liberta” pelo “sabor da morte” e que alimenta o tédio por saber que não morrerá e que terá todo tempo da existência lendo sobre tudo que existe – em “Amantes Eternos”, de Jim Jarmusch). “Quanto Tempo o Tempo Tem” confronta nossa visão sobre o como gastamos nosso tempo. O documentário oferece uma investigação sobre as principais linhas de nossa consciência sobre o passar das horas, um questionamento sobre a falta de tempo no mundo contemporâneo e uma reflexão sobre civilização e o futuro da existência humana. Confesso que quando o filme acabou, optei por não mais medir minha vida em curtidas digitais e sim investir meu tempo em viver momentos. Concluindo, um longa-metragem curto, de quase oitenta minutos, que desenha uma elucubração sobre o novo vício social reinante nos dias de hoje. Altamente recomendado.

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