Por Fabricio Duque

“A Garota de Fogo”, traduzida de “Magic Girl – Garota mágica”, busca abrigo (e conexão) no título da música homônima típica da Espanha (“La Niña de Fuego”, de Manolo Caracol), cujo conteúdo explicita um sentimento de desilusão existencial, andando no limite tênue da resignação resiliente e da omissão social para que assim se possa sobreviver em uma comunidade excessivamente exploratória e individualizada, mesmo tendo a ideia utópica de obrigação de felicidade massificada da convivência. É um filme indiscutivelmente que abraça e beija a estrutura cinematográfica do mestre Pedro Almodóvar, mas opta por se apresentar apenas referencial e não pelo viés da cópia. Outro elemento metafórico que talvez o espectador percebe, seja uma representação de uma Europa em agonia. Seus personagens “aceitam” uma omissão social quase predominantemente impotente. A saída encontrada é a fuga na própria introspecção. O filme até lembra, porém na verdade é sobre o comportamento das relações humanas e seus sentimentos (e maneiras de se lidar). Temos uma narrativa coral, por especificar intercaladamente histórias que se complementam no contexto geral, um precisando da ação “efeito borboleta” (que interfere e altera o andamento iminente próximo da própria trama) do outro. São núcleos à moda de “A Vida é Bela” (pai busca atender desejos terminais da filha) e à moda de “A Professora de Piano” (pelo sadomasoquismo necessário a sobrevivência capitalista do ser humano), que começa pela suavização novela interpretativa para que assim não choque o público com a constante quebra de tabus (essência intimidadora) do pululante espontâneo politicamente incorreto e de uma atualidade incompreensível pautada pela nova pop Kitsch experiência cultural japonesa). É um longa-metragem que poda seus protagonistas em adequações sociais por quereres motivados pela maciça propaganda do consumo do “ter que ter”. Aqui, há o conceito de livre arbítrio e cada um opta pela escolha e obviamente por suas consequências. Não se importando mais se legais ou não, entre “olhos negros”, “nenhuma lágrima pura”, “compaixão da boa esposa” (e do bom pai), “promessa de boa sorte”. A sinopse nos conta sobre Alicia (a atriz Lucia Pollan), uma garota de doze anos que, por ter leucemia, leva uma vida bastante regrada e cheia de idas e vindas ao hospital. Seu pai, Luis (o excelente ator Luis Bermejo – que interpreta por sutis expressões-reações), faz tudo o que pode por ela (inclusive permitir que viva experimentando “novidades” como uma bebida, um cigarro). Um dia, ao olhar em seu diário, o pai descobre que um dos desejos da garota é ter um vestido exclusivo de uma personagem de anime japonês, que custa quase sete mil euros. Decidido a presenteá-la, Luis busca algum meio de obter a quantia. A oportunidade surge quando é ajudado por uma mulher problemática, Bárbara (Barbara Lennie), que está sozinha em seu apartamento. “A Garota de Fogo” venceu o prêmio Concha de Ouro no Festival Internacional de San Sebastian 2014 e foi Exibido no Festival de Rotterdam 2015. O diretor Pedro Almodóvar escreveu um artigo louvando o trabalho do diretor do filme, Carlos Vermut (de “Diamond Flash”). Concluindo, um filme que precisa ser assistido. Recomendado.

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