Por Fabricio Duque

“A Linguagem do Coração” é, acima de tudo, um filme excessiva e incondicionalmente religioso, porque prega a raiz do cristianismo ao reiterar a estrutura narrativa fábula-parábola da pureza-inocência divina, com seus simbolismos sentimentais, com suas encenações teatralizadas e com suas cumplicidades emocionais (pelo “amor de Deus presente em todo lugar”). Cada vez a cinematografia francesa aproxima-se mais da hollywoodiana pelos gatilhos comuns de fácil absorção e pelo subterfúgio dos clichês cômodo-característicos, e assim mitiga o intrínseco elemento ironia-sarcasmo e substitui pela frágil, superficial e preguiçosa “água com açúcar”, limitando-se à praticidade comum da não experimentação (cada vez mais drama palatável de Sessão da Tarde que agrada gregos, troianos e católicos fervorosos). Basicamente, a sinopse nos conta sobre um convento que recebe, trata e ensina bons modos comportamentais à crianças-jovens “selvagens” com o adicional de serem surda-mudas-cegas (impossível não referenciar explicitamente a François Truffaut e seu “O Garoto Selvagem” e ou à História dos jesuítas que “adestram” e “padronizam” seus “fiéis”). Na trama, uma dessas “representantes” humanistas “veste a camisa” de suas crenças, “arregaça as mangas” e tenta arduamente realizar plenamente seu trabalho, buscando salvar almas indefesas necessitadas de cuidados físicos, “autistas” iniciais, mentais e que às vezes extrapolam o amor fraternal. Diferentemente do filme também francês “A Família Bélier”, de Eric Lartigau, que usa o humor naturalista-espontâneo quase politicamente incorreto e ou do ucraniano “A Gangue”, de Miroslav Slaboshpitsky, exemplar ultra realista de representação cênica, “A Linguagem do Coração”, título brasileiro que já influencia uma possível escolha do público a um produto altamente digerível, opta pelo tom novelado com técnica de cinema (pretendendo o classicismo de obras como “Irmão Sol, Irmã Lua”), conduzindo pelo conteúdo de romance amigável, pela rapidez na resolução de conflitos simplistas, pelas interpretações caricatas-estereotipadas (de sorrisos ingênuos à moda de uma obra televisiva mexicana) e pela redenção transmutada da incomunicabilidade defensiva de fuga auto-protetora ao conhecimento linguístico como forma de exteriorizar desejos, quereres, sentimentos. A personagem principal deixa de pertencer à “escuridão” e encontra a “alienação” social (a solução-sobrevivência para não viver em um “manicômio”). Complementando a sinopse, temos que no final do século XIX, na França, Marie Heurtin (Ariana Rivoire, atriz estreante no meio cinematográfico) é uma moça que nasceu cega e surda. Vivendo em seu próprio mundo, sem conseguir se comunicar, o pai dela a manda para um convento que cuida de crianças surdas. Entretanto, devido à falta de condições para tratá-la, a madre superiora (Brigitte Catillon) a recusa. Graças à insistência da freira Marie Margueritte (Isabelle Carré, atriz de “Românticos Anônimos”, “O Refúgio”, “Respire”), que diz que pode cuidar dela apesar de seu problema de saúde, a madre superiora volta atrás em sua decisão. Só que fazer com que Marie aprenda questões básicas de higiene e convívio com outras pessoas não é uma tarefa nem um pouco fácil. Concluindo, “A Linguagem do Coração” é um longa-metragem destinado à família, por corroborar os princípios mais elementares da construção-relação de indivíduos-seres-humanos sociais. Sem dúvidas, irá agradar principalmente às pessoas que buscam a pureza não questionada dos dogmas e filosofias do Catolicismo arcaico de ser.

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