Por Fabricio Duque

“A Segunda Esposa” representa uma crítica à sociedade patriarcal-machista da Turquia, e a suas mulheres que aceitam condescendentes as regras-tradições-aparências (os casamentos arranjados de bonitas jovens com doentes idosos já casados – “Mesmo que não seja o homem ideal, feche os olhos e Deus protegerá você”, “Não tenha medo, você é o sustento do seu casamento”) e seus “exatos” lugares (os afazeres domésticos sem questionamentos – ou poderiam ganhar um “olho-roxo”), cuja preocupação maior é a “máscara” aos outros da moral e dos bons costumes, escondendo segredos-hipocrisias e deturpando quereres-desejos-amores em prol de um “bem” mais válido. A narrativa “abriga” a estrutura de novela hollywoodiana, cortando rapidamente planos por embasamento em “piscadas” do público, tendo sua câmera ora estática, ora na mão, ora seguindo personagens, ora em “travelling”. Contudo, busca conservar a essência temática da trama pela simplicidade direta de criação da sinergia atmosférica com seu público. Assim, “caminha” na linha tênue entre autoral e comercial, imprimindo surpresas nas reviravoltas e tentando “quebrar” a obviedade do resultado, principalmente em “alfinetar” seus diálogos espontâneos-naturalistas-realistas, mitigados de sentimentalismo emocional, preterindo mais a indicação suavizada da “imoralidade” individualista (listando subjetivismo) que o “choque” totalitário da consequência esperada. “É um lindo casamento, quase tão emocionante que uma partida de futebol austríaco”, diz-se entre a tipicidade dos “mandamentos” festeiros e sentimentos de insatisfação, submissão e alívio (a diversão masculina e a espera obediente feminina). Mas como nem tudo é cem por cento padronizado, alguns “insolentes” lutam pela diferença “Prefiro mastigar vidro que estar casada”. Entre fades e elipses temporais, o longa-metragem, dirigido por Umut Dağ (de “Rachadura no Concreto – Risse im Beton”), perde ritmo e se assemelha mais com os gatilhos comuns de “incluir” e “resolver” os conflitos da história (sinestésico, pois o espectador sente o drama apresentado) desta família turca. Eles vivenciam as próprias vidas como um oportunista-falso evento social (transpassado como proteção) aos “próximos” para assim não ficarem falados, sofrendo calados, cuidando das obrigações, escondendo os sonhos, “abrindo mão” de tudo pela felicidade dos outros (quase uma divina e devotada “Maria de Deus”) e perpetuando o “poder” radical e incondicional da figura masculina. Há uma cumplicidade alienante-doentia de justificar o fim de “final feliz da paz interior” por meios de “sadismo auto-violentado”. Infelizmente, para que fosse possível “arredondar” a finalização, “A Segunda Esposa” aumentou seus clichês, os definindo como apressados, óbvios, palatáveis, de subterfúgios frágeis e fáceis (como a homossexualidade, novo casamento, o funcionário do supermercado, os olhares perceptíveis por todos, “entregando preguiçosamente” o que poderia ser um inteligente exemplar cinematográfico). A sinopse nos conta que Mustafa, um imigrante turco, mora em Viena com Fatma e seus seis filhos. Esta família tradicional escolhe Ayse, uma jovem de 19 anos, para se casar com um de seus filhos, mas quando ela chega no local, a realidade é outra: Ayse será a segunda esposa de Mustafa. Apesar da surpresa no início, nasce uma relação de amizade e cumplicidade entre essas duas esposas de gerações diferentes, principalmente quando a mais nova descobre que Fatma está doente, e tem seus dias contados. Concluindo, não é um filme ruim, pelo contrário, há maestrias como as interpretações, porém há saída da agradabilidade ao comum, transmutando-se inúmeras identidades de ingênuos fragmentos que se interconectam.

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