Por Fabricio Duque

“O Presidente” representa mais uma fábula-parábola-realista de alegoria política-social do diretor iraniano Mohsen Makhmalbaf (de “A Caminho de Kandahar”, “O Silêncio”, “Salve o Cinema”, “Um Instante de Inocência”, “O Ciclista”). Aqui, em um “país qualquer”, a narração ambienta a história da arrogância de um neto mimado de um comandante-presidente que “quer sorvete”, que manda “ligar e desligar as luzes da cidade”, até que é “obrigado” a vivenciar uma sôfrega-epopeia-existencial da queda revolucionária de seu universo “ditador”, embrenhando-se na cultura “externa”, aprendendo assim a humildade da sobrevivência contra “os inimigos: todos a sua volta” (uma população inteira que se rebela correndo atrás de seu carro em busca de vingança e de recompensa – até “mesmo” as ovelhas) e a favor dos “serviçais”. Se antes era a “orquestra ensaiada” que criava “pequenos” momentos, agora o “simbolismo queimado” ditava as regras, transmutando a metáfora do personagem “dominante” de outrora em um ser figurativo-humanizado de “compaixão”, ainda que seja pelo oportunismo (inicial – “dançando conforme a música”) de se manter vivo e proteger seu rebento familiar. O longa-metragem imprime um realismo teatral da fuga do presidente (quase fantasiosa em uma moto) à moda de “A Vida É Bela”, que neste caso, literalmente faz o pequeno “marrento” aprender a “limpar a própria bunda”. E que “famintos comportam-se mal, usando a violência”. “O Presidente”,  cujo cenário lembra a obra de 1938, “O Sobrevivente”, de Frida Kahlo, radiografa o comportamento social de ricos que roubam de pobres, que por sua vez roubam de pobres, e que por sua vez critica debochadamente a Sérvia. A narrativa, entre paralelos, flashbacks, intercala a vida de luxo, os amigos de “ontem”, uma música e duas crianças que dançam, para reiterar a mensagem de que “é melhor ficar esfomeada que insegura”. Assim, eles “bebem” na mesma fonte e “vivem” na mesma pele os dramas dos refugiados do “outro lado”. É um filme que permite a redenção pela inversão de valores, como se fosse um trabalho de campo intenso, visceral e desafiador de “ensinar” pelo sofrimento as dores daqueles que eram “escravizados”. Porém, o processo é longo, penoso e com recaídas, como quando roubam dos mortos, reverberando de que “não há moralidade”, tampouco salvação. Só que é muito fácil julgar quando não se está em terreno de batalha, cuja máxima de que “na guerra vale tudo” é mais que aceitável e permitido neste caso. A trajetória “road movie” passa pela destruição, por mortes, por capturas, por espancamentos com cabos. “Ideologia baseada em vingança, não é democracia”, diz-se “mudando” a atmosfera adjetivada. A projeção, o ego e o controle tornam-se o humano, o sensível e o solitário. A câmera apresenta-se com recorrente protagonismo, ora em tomadas áreas, ora estáticas, ora em extremo close-up, permitindo ao espectador que veja e sinta o sofrimento, e o final, um tanto suavizado encontra a redenção pretendida, a vingança pelas próprias mãos, a “pseudo” vitória contra um sistema arcaico e a felicidade libertadora. Concluindo, um exemplar mais para hollywoodiano que para a cinematografia característica iraniana a la “O Pequeno Príncipe”, que viaja na “escola-prática“ das virtudes-princípios-moralidades. Foi o filme de abertura da Mostra Orizzonti do Festival de Veneza 2014. Assistido durante o Festival do Rio.

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