Por Fabricio Duque

Antes de mais nada, para que se possa desferir palavras analíticas sobre o documentário “Eu Sou Carlos Imperial”, de Renato Terra e Ricardo Calil (de “Uma Noite em 67”), é preciso que o espectador se desvencilhe dos julgamentos “estimulados”, porque a tradução que se apresenta à tela é exatamente fidedigna ao protagonista homenageado, Carlos Imperial, e representa em sua totalidade suas idiossincrasias, manias, excentricidades e sua “pilantragem” a fim de conseguir o que queria, não se importando em deturpar os meios, desde que o fim fosse indiscutivelmente como planejava. A sessão assistida foi na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em uma pré-estreia lotada, com os diretores, equipe e filhos “amigos” do Imperial (termo-sobrenome este mais que acertado), o show-ego-man Carlos Imperial, uma figura apoteótica-exagerada, mentirosa, marqueteira, cafajeste, e que adorava uma vaia como forma de auto-promoção, que não tinha escrúpulos para “abocanhar” mulheres e músicas (de domínio público). Foi ”polêmico” e ou “gênio” e ou anti-herói, de extremado politicamente incorreto, mulherengo e vingativo, que com certeza não encontraria lugar para suas excentricidades e maestrias no mundo ultra sensível de agora. A narrativa conta-se por lembranças afetivas (“causos”) surreais, engraçadas e sem pudores de amigos e família (como por exemplo a “iniciação” de sua filha a “lugares inferninhos que um homem nunca deve levar uma mulher” e a “iniciação” do filho pequeno com mulheres mais velhas – com o “ensinamento” de “nunca sair com uma melhor por mais de três vezes” – quase um “ogro” futurista-projetado a la Barney Stinson, personagem da série “How I Met Your Mother”), seguindo a estrutura clássica documental e que “abraçam” com sinestesia o espectador ao interagi-lo ao universo único e particular de um ícone do mundo da música, televisão, política, perpassando por todos os caminhos. O documentário estimula a quem assiste uma livre e espontânea risada natural, conservando a atmosfera nostálgica, como se fosse uma máquina do tempo à aceitável-tolerável vida do produtor artístico do show business brasileiro, envolvido inteiramente no lançamento das carreiras de Roberto Carlos, Paulo Sérgio, Elis Regina, Tim Maia, Wilson Simonal, Clara Nunes e inúmeros outros artistas, nas produções de filmes e peças de teatro, nas participações em programas de televisão, nas autorias de músicas de sucesso como “A Praça” e “Vem quente que eu estou fervendo” e como ator nas pornochanchadas de sexo explícito “A Víuva Virgem”. O espectador chega um ponto que não se importa mais se o que Carlos Imperial diz é mentira, verdade, imaginação, fantasia, projeção, digressão, circo, manipulação, oportunismo, populismo e ou ideia maciça de psicologia reversa (“falem mal, mas falem de mim”). Definitivamente, não importa mesmo. Porém é incrível como a tradução “imperial” naquela época (mitigada de preconceitos e sensibilidades aguçadas) confronta-se e “atinge” a política social de nosso país, com seus julgamentos a característica principal do jeitinho brasileiro e maquinações-falcatruas de seu “homenageado”, e que cuja criação “Dez, Nota Dez… Eu Sou Carlos Imperial”, perpetuou-se em póstumo livro-biografia de Denilson Monteiro, que diz que a figura retratada “auto-declarava-se “rei da pilantragem” e tornou-se célebre por seu estilo de vida irreverente e libertino marcado por incontáveis casos amorosos”. Mais uma vez, reiteramos que não há como defini-lo, pelo contrário, devemos “aceitá-lo” como sendo quase um personagem fictício de si mesmo, que foi o vereador mais votado no Rio de Janeiro em 1982. Na sessão Pré-Estreia, que ainda contou com um presente especial: um show de seu filho com músicas famosas do pai, diretores, equipe e família revezaram-se e disseram que os cineastas “mostraram exatamente o que Carlos Imperial era. Ele queria ficar na história e falado após sua morte”. Concluindo, um filme recomendado, necessário e obrigatório que destaca sua fascinação por Orson Welles (“cada país tem o Orson Welles que merece”), que tem finalização com o próprio “pilantra e cafajeste” (que “morreu de amor”), que usava esses adjetivos com inocência e talvez defesa de sua vulnerabilidade, dizendo que “Você não pode parar com a vida, a vida é que tem que parar com você”; e “Quando estiver em um momento difícil, pense no que Carlos Imperial faria”. São tantas histórias, tantas vertentes, tantas camadas, que se com pretensão tentarmos pôr tudo aqui, precisaríamos de um novo livro. Então, “flutue” até o cinema e se embrenhe na personalidade indefinível de Carlos Imperial, em um filme “Dez, Nota Dez”.

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